Victor van Dooren é Diretor de Enterprise (e ex-gestor empresarial) na Rewilding Europe e um dos principais responsáveis pela definição e execução da estratégia europeia dedicada a criar novas oportunidades de negócio baseadas na natureza através do rewilding levado a cabo no terreno. Em entrevista, fala-nos das prioridades dos próximos anos, do potencial da plataforma Wilder Places e analisa o crescimento sustentado do projeto Rede Côa Selvagem em Portugal.
Qual é a estratégia da Rewilding Europe para 2030 no que diz respeito ao potencial que o rewilding pode ter no desenvolvimento socioeconómico dos países onde opera?
A nossa estratégia para 2030 consiste em mostrar que o rewilding não é bom apenas para a natureza, é também bom para os locais e para as pessoas que neles vivem. Queremos paisagens onde a recuperação da natureza crie realmente oportunidades: empregos, negócios, investimento e um sentido de identidade mais forte. O nosso principal objetivo é, em conjunto com as equipas de cada país, construir economias baseadas na natureza, por exemplo, à volta do turismo e dos produtos locais. Se a natureza se tornar um ativo do qual as pessoas podem beneficiar, então a renaturalização torna-se algo duradouro, abraçado pela comunidade.
Quais são as principais prioridades de ação? Quais são as principais oportunidades económicas a explorar e reforçar durante este período?
A nossa principal prioridade é fazer com que as economias baseadas na natureza funcionem realmente no terreno. Isso significa ajudar as empresas locais a tornarem-se mais fortes, mais profissionais e mais bem conectadas. A grande oportunidade que vemos nos próximos anos é o turismo baseado na natureza, feito de uma forma que se adapte à paisagem e beneficie a população local. Vemos uma clara procura por experiências relacionadas com a vida selvagem e oportunidades para os visitantes se envolverem de forma prática. Fortalecer a oferta nas paisagens para atender a essa procura é fundamental. Para ajudar esses prestadores de serviços turísticos a alcançar o seu público e reunir oferta e procura, lançámos a plataforma Wilder Places. No entanto, não estamos focados apenas no turismo, pois também estamos a procurar novas formas de financiamento e parcerias relacionadas com a natureza, para que a receita para o rewilding não venha de uma única fonte.
Priorizar o elemento humano na paisagem tem sido um fator diferenciador na abordagem de rewilding em comparação com a conservação mais tradicional. Porquê fazê-lo?
Porque embora estas paisagens possam ser pouco povoadas, não são espaços vazios: as pessoas vivem aqui e gerem os seus negócios aqui. O rewilding não acontece no vácuo, tem um contexto. Se as pessoas não virem benefícios, ou pior, se sentirem excluídas, simplesmente não funcionará a longo prazo. Quando as comunidades locais estão envolvidas e vêem novas oportunidades a surgir, o rewilding torna-se algo que elas próprias abraçam, apoiam e protegem. Portanto, para nós, focar nas pessoas não é um extra agradável, é essencial para o sucesso.
2026 pode ser o ano da afirmação da plataforma Wilder Places. Quais são as perspetivas em relação à plataforma?
A Wilder Places está num momento muito interessante. As bases estão lançadas e 2026 pode ser o ano em que ela realmente prove o seu valor. Já vemos um aumento na atração, em termos de pessoas que visitam a plataforma e perguntam sobre experiências. A grande questão é se ela pode atrair visitantes de forma consistente para paisagens em processo de renaturalização e canalizar receitas reais para as empresas locais, mantendo a alta qualidade. Se isso acontecer, pode ser uma ferramenta poderosa, não apenas para um lugar, mas para várias paisagens europeias.
Este mercado também nos ajuda a recolher dados sobre o que os visitantes potenciais procuram, o que, por sua vez, nos permite trabalhar de forma mais estratégica com parceiros locais para criar novas ofertas. Em termos de oferta, estamos atualmente a trabalhar com parceiros locais para aumentar o número e a variedade de viagens de vários dias, experiências diurnas e estadias. Estamos também a trabalhar num redesenho para melhorar ainda mais a aparência e integrar novas funcionalidades e traduções para as principais línguas europeias. O nosso objetivo é atender a um público diversificado, desde visitantes internacionais que procuram viagens mais longas até visitantes regionais interessados em vir por um ou dois dias.
Como vês o crescimento consistente da faturação proveniente de negócios baseados na natureza no Grande Vale do Côa?
É muito encorajador. O crescimento consistente mostra que não se trata apenas de uma tendência de curto prazo ou de um sucesso pontual. Isso diz-nos que o regresso da vida selvagem, uma história forte sobre a paisagem e o papel da natureza, e os negócios locais coordenados podem realmente mudar a economia local. É exatamente isso que esperamos ver nas paisagens de rewilding.
A capacidade de organizações sem fins lucrativos, como a Rewilding Portugal, se tornarem cada vez mais autossustentáveis financeiramente através do turismo pode traduzir-se numa maior viabilidade para este tipo de projeto?
Sim, absolutamente — desde que seja feito com sabedoria. O turismo pode proporcionar rendimentos estáveis e reduzir a dependência de subsídios, o que é um grande passo para a viabilidade a longo prazo. Mas não deve ser a única fonte de rendimento. Quando o turismo faz parte de um conjunto mais amplo, pode realmente fortalecer as organizações e permitir que elas reinvestam diretamente na conservação e no trabalho comunitário. Outra consideração a ter em conta, é encontrar o equilíbrio certo entre trabalhar com o turismo local e os fornecedores ou fazer as coisas por conta própria. Não se trata de competir. O objetivo deve ser «fazer crescer o bolo» e distribuir os benefícios entre o maior número possível de empresas para desenvolver uma economia turística sistémica e robusta baseada na natureza.
A Rede Côa Selvagem está a ser considerada um caso de sucesso. Como vês a maturação de um projeto que reúne tantas empresas à volta do rewilding?
O que mais me impressiona é a forma como a rede amadureceu. Já não se trata apenas de empresas individuais a fazerem o seu próprio trabalho, é um grupo que colabora, partilha uma visão e beneficia coletivamente do rewilding. Uma rede que funciona bem e que está enraizada no regresso da natureza às paisagens. Esse tipo de cooperação não acontece automaticamente. Demonstra confiança, boa coordenação e um entendimento comum de que trabalhar em conjunto torna todos mais fortes.
Por fim, o que mais te surpreendeu na estratégia socioeconómica e na sua implementação no Grande Vale do Côa? Algo que todas as outras paisagens europeias possam aprender e aplicar nas suas realidades.
O que mais me surpreendeu foi a rapidez com que o impulso inicial se desenvolve quando as pessoas começam a ver resultados reais – mais visitantes, mais interesse, mais orgulho. A Rede Côa Selvagem é um ótimo exemplo de como reunir empresas e pessoas com ideais semelhantes pode levar a novas colaborações à volta de um objetivo comum. Para mim, a grande lição para outras paisagens é esta: tratar o desenvolvimento socioeconómico com a mesma seriedade com que trata o restauro ecológico. Se investirmos nas pessoas, nas empresas e nas redes desde o início, a recuperação da natureza tem uma chance real de se traduzir em prosperidade a longo prazo.