Um rio não é meramente um curso de água. É um sistema vivo, em constante movimento, que liga paisagens, transporta sedimentos, sustenta biodiversidade e molda culturas humanas que vivem à volta dele, há milhares de anos. Para cumprir verdadeiramente este papel, de forma funcional, um rio deve ser livre. Em Portugal, a grande maioria dos rios encontra-se fragmentada por obstáculos artificiais que interrompem essa continuidade. O rio Côa é um exemplo emblemático dessa realidade, mas também um símbolo de esperança para a sua reversão.

A importância dos rios livres
A conectividade fluvial é essencial para o bom funcionamento dos ecossistemas aquáticos. Barreiras como açudes, ensecadeiras ou pequenas barragens, mesmo quando aparentemente modestas, têm impactos profundos e cumulativos. Interrompem a migração de peixes, alteram os regimes naturais de caudais, retêm sedimentos, degradam habitats e reduzem a resiliência dos rios face às alterações climáticas.
Num contexto mediterrânico, marcado por períodos prolongados de seca e eventos extremos cada vez mais frequentes, rios fragmentados tornam-se cada vez menos capazes de sustentar biodiversidade e serviços de ecossistema. Pelo contrário, rios livres tendem a ser mais resilientes: mantêm zonas de refúgio, renovam habitats, suportam ecossistemas saudáveis em seu redor e oferecem benefícios diretos às comunidades locais.
O rio Côa: natureza, cultura e conectividade
O rio Côa ocupa um lugar único nesta paisagem, dando nome a todo este vale. Atravessa o Grande Vale do Côa, uma região de elevado valor ecológico, cultural e simbólico. As suas margens guardam um dos mais importantes conjuntos de arte rupestre ao ar livre do mundo, testemunho de uma relação profunda entre o ser humano e o rio ao longo de milénios. Que se mantém viva e em evolução hoje em dia.
Contudo, esta relação entre rio e comunidades humanas e selvagens tem sido progressivamente fragilizada. Ao longo do seu curso existem várias estruturas obsoletas que deixaram de cumprir qualquer função útil, mas que continuam a fragmentar o rio. Estas barreiras interrompem a conectividade longitudinal do rio Côa, dificultam a migração de espécies piscícolas nativas, alteram a dinâmica sedimentar e contribuem para a degradação dos habitats aquáticos. Além disso, ao criarem zonas de água parada, estas estruturas provocam a inundação periódica das gravuras rupestres, acelerando processos de degradação num património cultural de valor incalculável.

Um protocolo para devolver liberdade ao rio
Em 2023, a Rewilding Portugal celebrou um protocolo com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e a Fundação Côa Parque com um objetivo claro: avaliar e viabilizar a remoção das ensecadeiras do rio Côa, estruturas provisórias para a criação de uma barrage, que felizmente nunca foi terminada, mas que deixou estas estruturas para trás, sem nunca terem sido removidas. Este protocolo marcou o início de um processo ambicioso de restauro fluvial, baseado em evidência científica, colaboração institucional e envolvimento comunitário, que continua à espera, mas com previsões de seguir para a frente.
Em 2024 foram apresentados os relatórios técnicos e preliminares, que apontam para benefícios inequívocos da remoção das estruturas. Do ponto de vista ambiental, a reposição da conectividade permitirá a migração de peixes, a recuperação de habitats e a melhoria global do funcionamento ecológico do rio. Do ponto de vista cultural, reduzirá a submersão das gravuras rupestres, contribuindo para a sua preservação a longo prazo. Os estudos demonstram ainda que a remoção é logisticamente viável, embora tecnicamente exigente e financeiramente dispendiosa. Trata-se de uma intervenção complexa, mas sustentada por dados sólidos e por uma visão de longo prazo para o território.
Atualmente, as entidades envolvidas trabalham na identificação de fontes de financiamento que permitam avançar para a fase de implementação. A APA tem reiterado a sua vontade de ver o processo concretizado, e a Rewilding Portugal compromete-se a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para pressionar a sua inclusão em futuros Orçamentos do Estado e outras linhas de financiamento nacionais e europeias que o tornem uma realidade num futuro próximo.

Um rio com mandato social para ser restaurado
Paralelamente ao trabalho técnico, a Rewilding Portugal desenvolveu no último ano, um amplo processo de participação pública na região. Foram realizadas sessões participativas em cinco municípios, envolvendo autarquias, agricultores, proprietários ribeirinhos, associações locais, operadores turísticos e cidadãos. Os resultados são encorajadores. As comunidades locais demonstram uma ligação emocional, cultural e identitária muito forte ao rio. O Côa é recordado como espaço de lazer, de infância, de contacto com a natureza, mas também como património vivo, com diversos usos tradicionais.
Ao mesmo tempo, existe uma perceção generalizada de que o rio se encontra apenas “parcialmente saudável”. A poluição da água, a degradação da vegetação ripícola, a fragmentação causada por barreiras e a perda de biodiversidade são apontadas como problemas centrais. A necessidade de restaurar a conectividade fluvial surge de forma consistente como uma das prioridades da própria comunidade. Isto constitui sem dúvida um mandato social para o restauro fluvial deste rio: a maioria dos participantes confirma desejar o restauro do rio Côa, para melhorar a qualidade de vida e valorizar o território, até do ponto de vista da atração turística. Mais de 70% dos inquiridos manifestaram vontade de participar em futuras iniciativas, e mais de 80% demonstraram interesse em receber mais informação. Esta disponibilidade revela um contexto raro e precioso: um rio que quer voltar a correr livremente, apoiado por quem vive com ele todos os dias.
Devolver o Côa à paisagem — e a paisagem ao Côa
Restaurar um rio não é apenas remover uma estrutura ou um conjunto de estruturas. É um processo que conecta novamente natureza, cultura e comunidades. No caso do Côa, devolver a continuidade fluvial significa permitir que os processos naturais voltem a moldar a paisagem, que as espécies retomem os seus ciclos, e que o património cultural identitário seja protegido de forma duradoura. Os rios livres são aliados essenciais num futuro que tende a vir a ser marcado por escassez de água e efeitos de alterações climáticas. O Côa pode tornar-se um exemplo de referência nacional, como um laboratório vivo de restauro fluvial participativo, onde ciência, políticas públicas e comunidades caminham lado a lado.