transição energética é hoje uma prioridade incontornável à escala global e tem sido apontada como uma solução urgente para responder aos atuais desafios climáticos. Face às alterações climáticas, à dependência de combustíveis fósseis e à instabilidade energética num mundo cada vez mais volátil, é natural que as energias renováveis surjam como uma solução essencial para reduzir emissões de carbono e construir um futuro mais resiliente e com menor dependência energética até entre países. No entanto, à medida que esta transição avança rapidamente, e muitas vezes sem o controlo adequado, motivada por interesses económicos que comandam os mercados de investimento, torna-se cada vez mais evidente que energia “verde” não é, automaticamente, energia sustentável ou sequer verde na verdadeira definição da palavra, pelo menos por si só.

Uma transição energética que ignore a biodiversidade corre o risco de resolver um problema, criando outro logo de seguida — igualmente grave e, em muitos casos, irreversível. Se o combate às alterações climáticas é urgente, a proteção da natureza não pode ser tratada como um dano colateral aceitável.
Biodiversidade: a base invisível da sustentabilidade da gestão territorial
A biodiversidade sustenta os ecossistemas e a funcionalidade das paisagens, das quais dependem também as sociedades humanas, que estão claro integradas também na paisagem, moldando-a com a sua ação diária. A biodiversidade regula o clima, protege os solos, assegura a disponibilidade e retenção natural de água na paisagem, promove a polinização, garante a resiliêcia dos territórios face a fatores extremos que são naturais, mas agravados pelas alterações climáticos. A natureza sempre esteve preparada para responder a fenómenos como esses, antes de ser drenada dessa própria capacidade.
A perda de biodiversidade, que tem vindo a acontecer de forma cada vez mais acelerada e considerada aliás muitas vezes de não retorno, algo a que o rewilding vem dar resposta e ação efetiva para além de promessas ou posturas cataclísticas de inação, não é apenas um problema ecológico, mas também um problema económico e social, que tem de ser respondido.
Qualquer estratégia de desenvolvimento sustentável de um território – incluindo a transição energética pensada para o mesmo – precisa, por isso, de reconhecer a biodiversidade como um pilar central, e não como um obstáculo de legislação e limitações a contornar na definição e execução do projeto. Os Estudos de Impacte Ambiental não são problemas, são garantias das condições mínimas de exiquibilidade de um projeto. A crise climática e a crise da biodiversidade são duas faces da mesma moeda e exigem respostas integradas entre si.

Energia Verde: quando o “Verde” tem um custo demasiado elevado
É inegável que as energias renováveis desempenham um papel crucial na redução das emissões de gases com efeito de estufa. A energia solar, eólica ou hídrica contribui para diminuir a pressão climática sobre os ecossistemas, o que, a longo prazo, pode beneficiar também a biodiversidade.
No entanto, o modo como estas infraestruturas são planeadas e implementadas depois no terreno faz toda a diferença. Grandes centrais solares ou eólicas podem ocupar milhares de hectares, fragmentar habitats, destruir corredores ecológicos essenciais e colocar em risco espécies vulneráveis. Linhas elétricas, acessos e outras infraestruturas associadas ampliam ainda mais esses impactos. Quando o critério dominante é apenas a rapidez de implementação ou a rentabilidade energética imediata, a natureza torna-se invisível nos processos de decisão e passa então a ser considerada um mero obstáculo a ultrapassar para a aprovação.
Um exemplo concreto desta tensão aconteceu em 2025, com o projeto de energia solar de grande escala SOPHIA, um caso específico na região da Beira Baixa, em que a Rewilding Portugal se manifestou contra a sua implementação, exatamente por estar a promover uma energia verde ao condicionar e fragmentar todo o “verde” à sua volta. Apresentado como uma contribuição relevante para a transição energética, este projeto prevê uma ocupação territorial de milhares de hectares numa paisagem de elevado valor ecológico. A área afetada inclui habitats importantes, espécies sensíveis e zonas fundamentais para a conectividade ecológica. Neste contexto, o projeto levanta uma questão essencial: pode uma solução energética ser considerada verdadeiramente verde quando implica a destruição significativa da biodiversidade que sustenta e protege o território? Este caso não é infelizmente uma exceção isolada, mas sim um reflexo de um desafio global: a falta de integração efetiva entre políticas energéticas e restauro ecológico.

Um verde efetivo e integrador
Para que a energia renovável seja realmente sustentável, é necessário adotar uma abordagem mais estratégica e responsável. E isso implica apostar num planeamento territorial baseado em critérios ecológicos, identificando zonas de baixo valor para a biodiversidade como prioritárias para infraestruturas energéticas, excluindo zonas de elevado valor ecológico e com níveis altos de biodiversidade. Implica por isso também excluir zonas de conectividade ecológica, assegurando que habitats e corredores naturais de vida selvagem não são fragmentados.
As avaliações de impacte ambiental devem também ser cada vez mais rigorosas e transparentes, realizadas desde as fases iniciais dos projetos, e terminando com esta percepção de que são apenas meros exercícios administrativos a ultrapassar numa fase inicial. Exige-se coerência: existem metas energéticas e metas de restauro ecológico e atingir umas não pode implicar o incumprimento das restantes.
A transição energética não precisa de ser feita à custa da biodiversidade. Pelo contrário, quando bem planeada, pode reforçar a resiliência dos territórios, valorizar paisagens naturais e criar soluções verdadeiramente sustentáveis. Chamar “energia verde” a projetos que comprometem irreversivelmente a natureza é esvaziar os conceitos de “verde” e sustentabilidade do seu significado mais profundo. A transição energética é urgente — mas não pode ser cega. Sem biodiversidade, não há sustentabilidade. E sem sustentabilidade, não há certamente o futuro que tanto se vaticina.