Entrevista a Fernando Gil Teixeira, Diretor de Comunicação e Enterprise da Rewilding Portugal

A Rede Côa Selvagem reúne hoje 70 empresas do Grande Vale do Côa. Há seis anos, não passava de uma ideia. Quem hoje está à frente do projeto é Fernando Gil Teixeira, Diretor de Comunicação e Enterprise da Rewilding Portugal e uma das pessoas por detrás da marca Grande Vale do Côa. Conversámos com ele sobre o processo de desenvolvimento da Rede e o caminho que a trouxe até aqui, sobre porque é que o rewilding não se faz apenas com natureza, e sobre o que faz deste território o lado mais selvagem de Portugal.
O rewilding é, à partida, um trabalho de conservação da natureza. Onde é que entram as pessoas?
A Rewilding Portugal foca-se muito num elemento social, que outras organizações foram negligenciado ao longo dos tempos. Habitualmente, uma ONG de conservação de natureza chega a um território, leva a cabo o seu projeto de natureza, executa-o no terreno, e acaba por nunca criar um vínculo duradouro com as comunidades locais onde atua. A Rewilding, em geral e também em Portugal, tem-se dedicado precisamente a criar esse vínculo positivo e envolvente. E aquilo que tem feito a diferença, ao entrar nestas comunidades muitas vezes do zero, é a capacidade de abrir portas e criar oportunidades e saber transmitir isso e apoiar nesse processo.
Porque é que o Grande Vale do Côa é o território ideal para isso?
Costumamos dizer que o Grande Vale do Côa é o território ideal para o rewilding (ou um deles) porque foi dos que mais sofreu com a desertificação nos últimos anos em Portugal. Esse abandono criou espaço e deu hipóteses à natureza para voltar por ela mesma. Ela tem feito esse trabalho, e nós damos depois o empurrão final. Mas ainda existem pessoas que vivem nesta paisagem, e queremos que colaborem connosco neste projeto. São elas que a têm moldado, muitas vezes com métodos não intensivos de uso da terra que ainda mantêm, e o Côa é um bom exemplo disso. Queremos que continuem por cá, que continuem a trabalhar, muitas vezes com moldes novos e novas valências. Têm surgido muitos negócios baseados na natureza, positivos para ela e não intensivos, e é neles que a Rewilding Portugal se tem alicerçado para criar esta ponte com empresários locais, novos que chegam e aqueles que já estavam neste território.

E é daí que nasce a Rede Côa Selvagem…
Exatamente. A Rede Côa Selvagem surgiu há seis anos, e amadureceu e cresceu muito nos últimos dois ou três, quando atingiu a sua “maioridade” digamos, como a própria Rewilding Portugal. Seguiu o processo natural da própria organização, que chegou ao território, foi trabalhando e começou a ver os primeiros frutos com o passar do tempo. Hoje reúne mais de 70 empresas de setores muito diferentes. Vai da restauração ao alojamento, aos guias, de natureza ou de património, e aos produtores locais, com produtos endógenos feitos na grande maioria de forma biológica e não intensiva.
Estas empresas, na maioria, já existiam. O que é que faltava?
A maioria já existia. De 70, umas 50 ou mais já cá estavam em 2019 quando começámos, e as outras foram chegando ao território nos últimos anos. Mas não trabalhavam em conjunto na sua grande maioria, estavam desconexas. Não havia nenhuma entidade, nacional, regional ou local, a conseguir pô-las a trabalhar juntas numa óptica que transcende munícipios e trabalha toda a região como um todo. O valor já lá estava, o valor que dão à paisagem, a forma como a querem proteger e partilhar com quem visita. Faltava a ideia de trabalhar em conjunto para fazer uma oferta única. Quem visita um território fica muitas vezes só uma noite, ou nem isso, se não tiver uma oferta integrada. E quem nos procura vindo do estrangeiro, o que felizmente acontece cada vez mais, vem de propósito para ver o projeto que a Rewilding Portugal desenvolve no terreno, e só fica se tiver uma proposta para vários dias que combine todas estas valências.
Como é que a Rewilding Portugal junta e prepara estas pessoas?
Pegámos num território que já tinha qualidade e quantidade suficientes, e começámos a capacitar as pessoas para trabalharem juntas, muitas vezes a combinar ofertas turísticas integradas, de uma forma que ninguém queria fazer ou tinha arriscado fazer. Cada operador trabalha o seu nicho, e não estavam coordenados. Nós garantimos essa coordenação. E depois trabalhamos uma camada acima. O trabalho da Rewilding Portugal só é reconhecido se for visitado e falado, por isso temos de trazer visitantes e garantir que, ao longo dos dias que cá passam, ouvem falar do projeto de forma positiva. Para isso, temos de estar todos no mesmo barco. A Rewilding Portugal representa estes membros em feiras nacionais e internacionais, e tem apostado muito na formação também. Se o serviço já tem qualidade, o que falta às vezes é só o empurrão final, coisas simples como hospitalidade, redes sociais ou práticas de sustentabilidade. Ninguém nasce ensinado, e o turista que recebem hoje é bem mais exigente do que o de antes.
E funciona? Há resultados que o mostrem?
Há, e são medíveis. Quando começámos, cerca de 20% dos membros já tinham trabalhado em conjunto. Hoje, perto de 50% recebem clientes indicados por outros membros. A economia circular baseada na natureza funciona, e está a funcionar. E num só ano, o fluxo de negócio que a Rewilding encaminha diretamente para os membros da rede já ultrapassa os 80 mil euros. Isto prova duas coisas. Que a conservação da natureza e a sua visitação podem ser economicamente viáveis por si, sem depender de fundos externos, que é o nosso grande objetivo para 2030, tornar a Rewilding Portugal o menos dependente possível de financiamento externo e capaz de se suportar com aquilo que gera. E prova que o território tinha capacidade e interesse para ser visitado, algo que ainda não estava a ser explorado, e para o qual temos vindo a trazer público.
Olhando para tudo isto, o que sente que a Rede Côa Selvagem representa?
Para mim, é uma visão integradora do território. O rewilding é um potenciador de atração turística, mas faltava-lhe um mecanismo para funcionar. Juntar 70 empresas, pô-las a trabalhar em conjunto, criar visitação conjunta, formar estas pessoas, e garantir que há uma unidade, até gráfica, na forma como se vende o território (que muitas vezes era também um problem) foi fundamental. Pegámos em ofertas totalmente desconexas e demos-lhes um sentido. Promovemos o Grande Vale do Côa como o lado mais selvagem de Portugal, e ele é, neste momento, certamente um dos mais selvagens que temos. Mas esta imagem só passa se todos os operadores que estão no território acreditarem nela tanto quanto a Rewilding Portugal acredita.
E o futuro?
O caminho é que a Rewilding Portugal dependa cada vez menos de fundos externos e voláteis e se sustente com aquilo que consegue gerar, e esta Rede é uma peça central disso. Se quem visita o Côa perceber o projeto, o valorizar e o partilhar, e se cada empresa do território acreditar nesta visão tanto como nós, então provamos que recuperar a natureza e viver dela sem a impactar negativamente podem ser dois fatores que conseguem andar e prosperar juntos. É essa a prova que queremos deixar. Não só para o Grande Vale do Côa, mas para o turismo de natureza e para Portugal.
É, no fundo, isso a Rede Côa Selvagem. A prova de que o lado mais selvagem de Portugal também pode ser um dos mais vivos e mais prósperos, quando as pessoas que o habitam decidem construí-lo em conjunto.
Entrevista e edição do Visit Greater Côa Valley.