Restaurar a Fauna em Falta: O regresso do castor como uma oportunidade para os rios de Portugal

Junho 22, 2026

Há espécies que habitam a paisagem. E há espécies que a constroem. O castor-europeu (Castor fiber) pertence ao segundo grupo — é aquilo a que a ecologia chama um engenheiro de ecossistemas, um animal que não se limita a viver no seu ambiente, mas que o transforma de forma profunda e duradoura. As suas barragens, ou açudes, levantadas com ramos, troncos e lama, convertem cursos de água lineares em mosaicos de zonas húmidas. E é a partir desse gesto simples que se desencadeia uma cascata de efeitos ecológicos notável pela sua amplitude.

Beaver (Castor fiber) in the Peene valley, Peene river, Anklam, Germany
Beaver (Castor fiber) in the Peene valley, Peene river, Anklam, Germany
Solvin Zankl / Rewilding Europe

Há espécies que habitam a paisagem. E há espécies que a constroem. O castor-europeu (Castor fiber) pertence ao segundo grupo — é aquilo a que a ecologia chama um engenheiro de ecossistemas, um animal que não se limita a viver no seu ambiente, mas que o transforma de forma profunda e duradoura. As suas barragens, ou açudes, levantadas com ramos, troncos e lama, convertem cursos de água lineares em mosaicos de zonas húmidas. E é a partir desse gesto simples que se desencadeia uma cascata de efeitos ecológicos notável pela sua amplitude.

A água, primeiro

Comecemos pela água. Os açudes dos castores retêm-na durante os períodos de seca, funcionando como reservatórios naturais que a libertam progressivamente ao longo dos meses mais secos. A jusante, o fluxo do rio regulariza-se: menos extremo nas cheias, mais sustentado na estiagem. Num país como Portugal, em que a gestão hídrica será uma das principais preocupações das próximas décadas, este serviço é de valor incalculável.

As zonas húmidas que o castor cria são também filtros naturais. Os sedimentos depositam-se, os nutrientes são absorvidos pela vegetação aquática, e a água que sai a jusante é mais limpa do que a que entrou. Em bacias sob pressão agrícola, esta filtração tem impacto direto na qualidade da água.

Pontos quentes de biodiversidade

Do ponto de vista da biodiversidade, as zonas húmidas dos castores são autênticos hotspots. Por toda a Europa, os estudos mostram que as áreas com presença de castores apresentam índices de biodiversidade significativamente mais elevados do que áreas equivalentes sem eles: mais anfíbios, mais aves aquáticas, mais peixes, mais invertebrados aquáticos, maior diversidade de plantas ribeirinhas.

O castor é ainda um perturbador da floresta ribeirinha — e usamos «perturbador» no sentido positivo. Ao abater árvores e arbustos para as suas construções e como alimento, abre clareiras que rejuvenescem a floresta, promovem a diversidade estrutural e criam habitat para espécies dependentes de fases iniciais de sucessão.

Uma ausência de cinco séculos

Em Portugal, o castor terá desaparecido entre a Romanização e a Idade Média, vítima da caça excessiva e da destruição das zonas húmidas, numa época em que a pressão sobre a fauna era descontrolada. A evidência da sua presença histórica permanece nos registos fósseis — como na Gruta do Caldeirão, perto de Tomar — e na toponímia, com lugares cujos nomes parecem derivar de designações arcaicas para o animal. Durante cerca de quinhentos anos, os rios portugueses ficaram sem o seu engenheiro.

beaver eating green plants, Bieszczady Mountains, Eastern Carpathians, Poland
beaver eating green plants, Bieszczady Mountains, Eastern Carpathians, Poland
Grzegorz Lesniewski

O exemplo escocês: o rio Tay

A reintrodução do castor na Escócia é um dos casos mais bem documentados da Europa, e tem particular relevância para nós: tal como Portugal, a Escócia esteve séculos sem castores e teve de reconstruir o conhecimento sobre o comportamento e os impactos da espécie num contexto moderno.

Em 2009, após um longo processo de consulta pública e avaliação científica, arrancou um programa oficial de reintrodução em Knapdale, Argyll. Em paralelo, indivíduos de origem bávara já tinham sido libertados de forma não autorizada no rio Tay, dando origem a uma segunda população em rápida expansão.

O que se seguiu surpreendeu mesmo os ecólogos mais otimistas. No Tay, os castores colonizaram espontaneamente dezenas de quilómetros do sistema fluvial — entre 2017 e 2018, a população estimava-se entre 300 e 550 indivíduos. As suas barragens criaram novas zonas húmidas, as populações de truta e salmão recuperaram em vários troços, e as cheias a jusante perderam intensidade.

Houve também conflitos com agricultores cujos campos foram inundados, com proprietários florestais que perderam árvores. A resposta foi um sistema de gestão que incluiu compensação financeira, dispositivos de controlo do nível da água nas barragens e realojamento de animais problemáticos. Em 2019, o castor foi declarado espécie protegida na Escócia, tornando-se o primeiro mamífero extinto a ser oficialmente reintroduzido e protegido no Reino Unido. Hoje, continua a expandir-se para novas bacias, com translocações ativas para os Cairngorms.

Faz sentido ecológico — e faz sentido económico

As bacias do Tejo e do Douro são os candidatos naturais a uma primeira reintrodução em Portugal. Ambas têm afluentes com habitat ribeirinho adequado: vegetação ripícola desenvolvida, velocidade de corrente apropriada, alimento suficiente. A escolha dos locais exigiria uma avaliação técnica detalhada, mas o potencial está claramente presente.

Aos argumentos ecológicos juntam-se os económicos e climáticos. Portugal enfrenta um problema crescente de seca e de gestão hídrica, e as projeções para as próximas décadas são preocupantes. Aqui está uma espécie que, literalmente, constrói reservatórios de água, filtra os rios, regulariza o caudal e reduz a intensidade das cheias — e faz tudo isto de graça, sem manutenção, 24 horas por dia.

Em fevereiro de 2025, um caso na Europa Central ilustrou perfeitamente este argumento. Na região de Brdy, na República Checa, uma família de castores construiu espontaneamente uma série de barragens exatamente no local onde se planeava uma estrutura artificial para proteger o rio Klabava. O projeto humano estava parado há sete anos, travado por entraves burocráticos e questões de propriedade da terra. Os castores resolveram-no em poucas noites. A poupança estimada para as autoridades foi de cerca de 1,2 milhões de dólares (30 milhões de coroas checas), e a área resultante ficou com o dobro do tamanho previsto. Não é uma anedota. É um argumento de política pública — a demonstração mais recente e concreta de que trazer o castor de volta não é ecologia sentimental, mas gestão inteligente de recursos naturais.

Beavers eat trees along their banks of their pond, Bieszczady Mountains, Eastern Carpathians, Poland
Beavers eat trees along their banks of their pond, Bieszczady Mountains, Eastern Carpathians, Poland
Grzegorz Lesniewski

A natureza regressa com ou sem permissão

Vale a pena mencionar outro fenómeno recente: as libertações não autorizadas de castores. Nas últimas décadas, a Europa tem assistido a uma vaga silenciosa de reintroduções informais — em Inglaterra, na Alemanha, na Bélgica, nos Países Baixos e em Espanha — levadas a cabo por particulares e grupos que se anteciparam aos processos oficiais. Isto diz-nos algo importante: existe uma procura social ativa por mais vida selvagem nas paisagens europeias, uma procura que os canais institucionais, com os seus ciclos de consulta, avaliação de impacto e horizontes políticos de quatro anos, têm sistematicamente falhado em satisfazer.

Vivemos um momento singular. Pela primeira vez em séculos, a Europa tem populações de castores, lobos, ursos, abutres e lontras a expandir-se por territórios que não pisavam há gerações. A natureza está a regressar com ou sem a nossa permissão. A única questão que nos compete responder é se queremos participar nesse processo de forma inteligente, antecipada e justa.

E em Portugal?

Em maio de 2025, a nossa equipa de monitorização confirmou, em vídeo e fotografia, a presença de um castor-europeu jovem adulto em território português, no Parque Natural do Douro Internacional, junto à foz do rio Tormes. Primeiro foram as marcas de roedura características nos troncos; depois, as imagens captadas por foto-armadilhagem. Após cerca de 500 anos de ausência, o castor chegou por dispersão natural, a partir das populações espanholas que se têm expandido ao longo das últimas duas décadas — um processo que começou em 2003, com a libertação não oficial de 18 indivíduos no rio Aragão, afluente do Ebro, e que alcançou progressivamente as bacias do Douro e do Tejo. Já em 2023 havia registos de castores a escassos quilómetros da fronteira portuguesa, nos Arribes del Duero. Na altura dissemos que era uma questão de tempo. E aqui estamos.

Agora é preciso preparar as condições para que fique. Um único indivíduo dispersante não faz uma população. Para o castor se estabelecer e reproduzir de forma sustentada são precisos grupos reprodutores, locais com habitat ribeirinho adequado ao longo das bacias do Douro e do Tejo, e comunidades locais e agricultores preparados para a sua presença — com informação, com mecanismos de gestão de conflitos e com a garantia de apoio técnico quando surgem problemas.

É aqui que um programa de reintrodução formal faz toda a diferença. Não substitui a expansão natural — aproveita-a. Pega no impulso que a natureza já iniciou e acelera-o, consolida-o, distribui-o por múltiplas bacias, em vez de esperar que o castor percorra sozinho centenas de quilómetros de rios degradados. A diferença entre ter castor no Douro Internacional em 2025 e tê-lo no Tejo, no Mondego e no Guadiana em 2035 pode estar exatamente aí: na decisão de agir agora.

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