Restaurar a Fauna em Falta: O quebra-ossos, uma ave em falta nos céus de Portugal

Julho 8, 2026

Há uma ave que já não voa sobre as montanhas portuguesas – e que, de todas as espécies ausentes, é talvez a mais reveladora do que significa perder um necrófago: o quebra-ossos.

Credits: Luca Melcarne

O quebra-ossos (Gypaetus barbatus) é único na avifauna europeia: mais de 70% da sua dieta é composta por ossos. Para isso, desenvolveu adaptações que nenhuma outra ave possui — um estômago com um pH tão ácido que dissolve osso em menos de 24 horas, e um comportamento conhecido como “ossifragia”, em que a ave sobe a grande altitude com um osso nas garras e o deixa cair sobre rocha para o partir em fragmentos que consegue engolir. Também esfrega o peito em sedimentos ricos em óxido de ferro, adquirindo a tonalidade ferrugem que lhe valeu, em Portugal, o nome que lhe deu o rei D. Carlos: “águia de barbas”.

É o necrófago de última fase. Onde os grifos e os abutres-pretos deixam uma carcaça depois de consumirem os tecidos moles, o quebra-ossos chega a seguir e recicla o que resta — os ossos. Essa reciclagem devolve cálcio e fósforo à paisagem, e reduz a persistência de ossos no terreno, um factor associado à transmissão de doenças entre herbívoros. É uma função ecológica que nenhuma outra espécie substitui.

Portugal continental perdeu esta espécie ao longo do século XX, vítima da perseguição directa, do envenenamento com iscos destinados a predadores, e do colapso das populações de ungulados selvagens de que dependia. Está hoje classificada como regionalmente extinta na Lista Vermelha das Aves de Portugal.

Um exemplo que já funcionou

O caso mais relevante para pensar o futuro português não são os Pirenéus, onde a espécie nunca desapareceu por completo, mas os Alpes — extintos no início do século XX e reintroduzidos a partir de 1986, com aves criadas em cativeiro. A primeira reprodução na natureza aconteceu em 1997, onze anos depois. Hoje há 77 unidades territoriais nos Alpes, com 49 juvenis voados na última temporada registada. É um dos maiores sucessos de reintrodução de aves alguma vez alcançados na Europa.

Mais significativo ainda: depois de a população alpina se estabelecer, as aves começaram a dispersar-se sozinhas para novos territórios — Maciço Central francês, Cévennes, zonas dos Pirenéus fora da sua distribuição histórica. A população ibérica, centrada nos Pirenéus, cresceu de 59 territórios antes de 1995 para 198 em 2023.

Em abril de 2026, a Universidade de Málaga e a Fundación para la Conservación del Quebrantahuesos publicaram o primeiro modelo de conectividade ecológica à escala ibérica para a espécie, combinando dados GPS de 57 indivíduos com modelos de favorabilidade ambiental. Portugal não está incluído. Não por decisão arbitrária, mas porque não há dados de campo portugueses que justifiquem a inclusão — nenhum acompanhamento de exemplares, nenhum estudo de adequabilidade de habitat. É um sintoma tanto quanto uma ausência.

O estudo confirma ainda algo determinante: a filopatria extrema da espécie significa que a recolonização espontânea a partir dos Pirenéus seria um processo de décadas. Há registos de incursões de juvenis em Portugal desde 2008, mas sem intervenção deliberada que crie condições de atracção e fixação, essas incursões continuarão a ser episódios isolados, não o início de uma população.

Planos que existem no papel

Portugal não está sem instrumentos. A Estratégia para a Conservação do Quebrantahuesos em Espanha e Portugal, aprovada em Fevereiro de 2025 e co-assinada pelo ICNF, reconhece formalmente que Portugal não tem plano de recuperação para a espécie e que esta nem sequer consta do Plano de Ação para a Conservação de Aves Necrófagas (PACAN) actual — determinando que esse documento deve ser revisto para a incluir.

O projecto europeu LIFE Corredores Ibéricos por el Quebrantahuesos, aprovado em 2022 e activo até 2027, desenha um corredor ecológico de leste a oeste na Península, com o ICNF envolvido como observador convidado. Mas, tanto quanto é possível apurar, os estudos de condições ecológicas previstos para o norte de Portugal não foram realizados, não existem resultados sobre o potencial do Douro Internacional, e o PACAN continua por rever, apesar do compromisso assumido.

Este padrão não é exclusivo do quebra-ossos. A Rewilding Portugal submeteu, desde 2020, pedidos de licença para deposição de cadáveres em campo no Grande Vale do Côa — uma medida que o próprio PACAN prevê. Esperou cinco anos pela primeira aprovação, concedida em Janeiro de 2025. As restantes continuam sem resposta do ICNF.

O que falta fazer

Nada disto torna a reintrodução impossível — torna-a mais distante do que precisava de ser. No imediato, entre 2025 e 2027, seria necessário realizar os estudos de adequabilidade de habitat já previstos para o Douro Internacional e a Serra da Malcata, criar um sistema formal de monitorização de exemplares que entrem em território português, e rever o PACAN para incluir a espécie.

A médio prazo, Portugal precisa de uma análise de viabilidade populacional própria, que responda a três perguntas: que áreas têm condições ecológicas suficientes, que ameaças têm de ser eliminadas primeiro, e que escala de intervenção seria necessária. Essa análise já existe para Gredos, para o Maestrazgo, para os Picos de Europa. Não existe para nenhuma área portuguesa.

A Estratégia ibérica de 2025 tem oito anos de vigência e metas para 2030. Portugal está formalmente incluído. Transformar essa presença nominal em presença real exige que o ICNF passe de observador a parceiro activo, que o PACAN seja revisto, e que exista financiamento dedicado. O instrumento político já existe — o que falta é execução.

Um programa que se arraste indefinidamente sem resposta não seria apenas uma falha de conservação. Seria uma falha institucional, com consequências para a credibilidade de Portugal como parceiro nos programas europeus de restauro da natureza.

 

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