Paul de Toirões: antiga zona mineira transforma-se em verdadeiro óasis de biodiversidade

Junho 19, 2026

Quatro anos de rewilding estão a transformar o Paul de Toirões num oásis de biodiversidade no Grande Vale do Côa. Uma antiga mina que extraía vida da paisagem e que agora lha devolve em dobro, retendo cada vez mais água e albergando um número cada vez maior de espécies.

Paul de Toirões wetland in the Greater Côa Valley
Paul de Toirões wetland in the Greater Côa Valley, Marcus Westberg
Marcus Westberg

Existem paisagens que contam histórias de destruição, tantas vezes por resolver ou restaurar. E existem paisagens que contam histórias de recuperação. Na área rewilding do Paul de Toirões, uma antiga área mineira localizada no Grande Vale do Côa, as duas coexistem agora lado a lado. E as cicatrizes do passado estão a sarar no presente e a garantir o futuro.

As marcas da extração continuam presentes na topografia irregular do terreno, nos canais escavados artificialmente e nas lagoas que nasceram da atividade mineira. Mas entre essas cicatrizes expostas, começou há quatro anos a desenhar-se uma história diferente. Uma história escrita pela água, pelas plantas, pelos anfíbios, pelas aves e por todos os processos naturais que lentamente voltam a ocupar o espaço que lhes foi retirado. Quatro anos após o arranque do projeto de restauro ecológico desenvolvido pela Rewilding Portugal nesta área, com o apoio da Mossy Earth, os resultados tornam-se cada vez mais visíveis.

Mas talvez a palavra mais importante seja outra. Mensuráveis. Porque aquilo que aconteceu no Paul de Toirões não é apenas uma transformação visual. É uma transformação funcional, que deve ser medida, quantificada, acompanhada e replicada por todo o território.

Uma mina abandonada a ganhar uma nova vida

Quando a exploração mineira terminou, há bem mais de uma década, a natureza começou imediatamente a reclamar o território de forma lenta e gradual. As escavações abandonadas acumularam água. A vegetação espontânea começou a surgir. Algumas aves encontraram refúgio nas lagoas criadas involuntariamente pela atividade humana. Mas apesar deste potencial, a paisagem continuava presa a uma herança artificial…

Grande parte da água que chegava ao local durante os períodos de chuva continuava a escoar rapidamente através de canais e estrangulamentos criados durante décadas de atividade mineira. A água passava, mas não permanecia. E sem permanência não é possível ter uma zona húmida funcional que possa fazer gerar a explosão de vida que caracteriza normalmente estes ecossistemas. Além do mais, falamos de escavações com margens íngremes não preparadas ou pensadas para a vida selvagem e que muitas vezes a mantinham longe, apesar de tão perto. E de nada serve essa água na paisagem se não for acessível a quem precisa dela para garantir a funcionalidade de um ecossistema. E foi precisamente aqui que entrou o rewilding.

As primeiras intervenções

Em 2022, a Rewilding Portugal e a Mossy Earth iniciaram um conjunto de intervenções desenhadas para restaurar os processos hidrológicos da área. Ao contrário de projetos convencionais de engenharia ecológica, o objetivo não era desenhar um ecossistema. Era permitir que aquele que já existia emergisse em toda a sua funcionalidade e capacidade.

Para tal, foram identificados vários pontos onde a água abandonava rapidamente a paisagem através de antigos canais de drenagem e passagens estreitas criadas durante a exploração mineira. Nesses locais foram construídas barreiras estratégicas naturais utilizando os próprios materiais disponíveis no terreno e reforçadas com vegetação nativa, incluindo salgueiros, que se têm espalhado pela paisagem através de dispersão natural. Algumas passagens artificiais foram removidas ou bloqueadas. Antigos tubos de drenagem deixaram de acelerar o escoamento da água.

Falamos de pequenas intervenções à vista, mas que levam o seu tempo e que têm consequências extraordinárias na saúde de uma paisagem aquática. Ao reduzir a velocidade do escoamento, a água passou a espalhar-se pela paisagem de forma mais uniforme, inundando áreas que anteriormente permaneciam secas durante grande parte do ano e criando assim novos habitats aquáticos e semi-aquáticos. O resultado não foi apenas mais água. Foi mais tempo para a água e ter a água por mais tempo, em mais locais diferentes dos que anteriormente ocupava. E essa diferença muda e mudou tudo.

Wildlife Greater Côa Valley
Wildlife Greater Côa Valley
Frank Liu Photography

Quase o dobro da superfície de água

A evolução observada através de cartografia aérea de alta resolução revela com clareza a dimensão da transformação e a análise voltou a ser feita agora, praticamente quatro anos depois.

Em 2020, antes das intervenções, a área analisada apresentava 21.472 metros quadrados de superfície de água. Na primavera de 2023, poucos meses após a conclusão dos trabalhos de maquinaria e intervenção mais direta, esse valor já tinha aumentado na altura para 31.706 metros quadrados – um crescimento já significativo de 47,2%. Mas o resultado mais impressionante acabou por surgir nos anos seguintes.

À medida que a vegetação se estabeleceu, que os solos começaram a recuperar capacidade de retenção e que os novos sistemas húmidos estabilizaram, a superfície de água continuou a aumentar. Em abril de 2026 atingia já 40.743 metros quadrados. Estamos a falar de um aumento de 87,3% relativamente à situação anterior às intervenções, em apenas 3 anos e meio!

Num território mediterrânico marcado por secas recorrentes e crescente escassez hídrica, este é um resultado particularmente significativo e não justificado apenas por anos mais chuvosos, já que estes também têm sido seguidos por verões mais secos e vice-versa. E esta diferença não acontece apenas porque existe mais água na paisagem, mas sim porque existe uma paisagem verdadeiramente capaz de armazená-la.

Primeiro chegou a água. Depois chegou a vida.

O desenvolvimento do planeta obedece a essa regra e as imagens recolhidas ao longo destes quatro anos confirmam-na e mostram uma sequência ecológica fascinante.

Nas áreas intervencionadas, a água foi o primeiro elemento a regressar. E a ficar. A vegetação veio depois. Taboas, salgueiros e tantas outras plantas características de zonas húmidas começaram gradualmente a colonizar e ocupar as margens das lagoas e áreas inundadas em número e densidade. Aquilo que inicialmente eram superfícies abertas de água, expostas e de margens vazias, transformou-se progressivamente num mosaico complexo de habitats.

E onde surgem habitats diversificados, a biodiversidade responde. Entre a vegetação aquática reproduzem-se hoje em rãs-verdes, relas e rãs-ibéricas. As lagoas oferecem refúgio ao cágado-de-carapaça-estriada, espécie considerada Quase Ameaçada devido à perda generalizada de zonas húmidas em toda a Europa. Libélulas, escaravelhos aquáticos e inúmeros outros invertebrados ocupam nichos ecológicos que simplesmente não existiam antes. Nas margens inundadas alimentam-se aves limícolas e patos. As lontras e a garça-real aproveitam-se dos invasores lagostins-vermelhos, mantendo o seu número controlado e utilizando-os como importante alimento e parte da sua dieta. Nos céus circulam regularmente milhafres-pretos, águias-cobreiras e tantas outras aves que até já nidificam no local. A tímida cegonha-preta já se mostra e aparece por cá com regularidade.

Cada espécie representa uma peça adicional de um sistema ecológico que continua a ganhar complexidade com o passar do tempo.

Os pequenos charcos que mudam tudo

Uma das consequências mais interessantes das intervenções foi o aparecimento de charcos temporários mediterrânicos. Pouco espetaculares à primeira vista, estes habitats estão entre os mais raros e ecologicamente valiosos da paisagem mediterrânica, já que durante o inverno e a primavera acumulam água proveniente das chuvas e das cheias das lagoas adjacentes, mas com a chegada do verão tornam-se gradualmente isolados e acabam por secar.

Mas é precisamente esta alternância que os torna tão importantes. Sem peixes permanentes e outros predadores aquáticos, exatamente por secarem em certas épocas do ano, estes pequenos refúgios oferecem por isso mesmo condições ideais para a reprodução de anfíbios e numerosos invertebrados especializados, que precisam destas zonas húmidas sem predação para se reproduzirem em segurança. Ao criar condições para a formação destes habitats, este projeto não aumentou apenas a quantidade de água presente na paisagem, mas conseguiu também aumentar a sua diversidade ecológica.

 

O futuro começa agora

Apesar dos resultados alcançados, o Paul de Toirões continua apenas no início da sua recuperação. A sucessão ecológica está longe de terminar e o rewilding precisa de mais tempo ainda para produzir resultados cada vez mais visíveis e impactantes. Celebramos por isso as pequenas vitórias e impactos, mas sabendo que existe muito mais por fazer e acompanhar nos próximos anos.

A vegetação continuará a transformar os habitats existentes, novas espécies continuarão a colonizar a área e os próximos passos passam por devolver ainda mais processos naturais à paisagem. Por isso mesmo, a presença de grandes herbívoros por exemplo é fundamental, e existem planos para os trazer de volta a esta paisagem como já fizemos noutras áreas rewilding pelo território fora.

É ainda importante reforço das populações de coelho-bravo e outras pequenas presas, que consigam potenciar uma crescente utilização da área por predadores como o lobo ou, futuramente, o lince-ibérico. Tudo peças ainda em falta numa paisagem que se quer verdadeiramente funcional e que poderão acrescentar ainda mais novas camadas de complexidade a este sistema em franca recuperação.

Porque o objetivo nunca foi apenas criar um conjunto de lagoas. O objetivo sempre foi criar as condições para que a natureza voltasse a moldar o seu próprio futuro de forma funcional e completa. Quatro anos depois, a água continua a mostrar o caminho. E a vida continua a segui-la, como sempre fez até aqui.

E podes vir visitar e ver estes resultados com os teus próprios olhos! Contacta-nos para info@rewilding-portugal.com e marca a tua visita connosco.

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