Quatro anos de rewilding estão a transformar o Paul de Toirões num oásis de biodiversidade no Grande Vale do Côa. Uma antiga mina que extraía vida da paisagem e que agora lha devolve em dobro, retendo cada vez mais água e albergando um número cada vez maior de espécies.

Existem paisagens que contam histórias de destruição, tantas vezes por resolver ou restaurar. E existem paisagens que contam histórias de recuperação. Na área rewilding do Paul de Toirões, uma antiga área mineira localizada no Grande Vale do Côa, as duas coexistem agora lado a lado. E as cicatrizes do passado estão a sarar no presente e a garantir o futuro.
As marcas da extração continuam presentes na topografia irregular do terreno, nos canais escavados artificialmente e nas lagoas que nasceram da atividade mineira. Mas entre essas cicatrizes expostas, começou há quatro anos a desenhar-se uma história diferente. Uma história escrita pela água, pelas plantas, pelos anfíbios, pelas aves e por todos os processos naturais que lentamente voltam a ocupar o espaço que lhes foi retirado. Quatro anos após o arranque do projeto de restauro ecológico desenvolvido pela Rewilding Portugal nesta área, com o apoio da Mossy Earth, os resultados tornam-se cada vez mais visíveis.
Mas talvez a palavra mais importante seja outra. Mensuráveis. Porque aquilo que aconteceu no Paul de Toirões não é apenas uma transformação visual. É uma transformação funcional, que deve ser medida, quantificada, acompanhada e replicada por todo o território.
Uma mina abandonada a ganhar uma nova vida
Quando a exploração mineira terminou, há bem mais de uma década, a natureza começou imediatamente a reclamar o território de forma lenta e gradual. As escavações abandonadas acumularam água. A vegetação espontânea começou a surgir. Algumas aves encontraram refúgio nas lagoas criadas involuntariamente pela atividade humana. Mas apesar deste potencial, a paisagem continuava presa a uma herança artificial…
Grande parte da água que chegava ao local durante os períodos de chuva continuava a escoar rapidamente através de canais e estrangulamentos criados durante décadas de atividade mineira. A água passava, mas não permanecia. E sem permanência não é possível ter uma zona húmida funcional que possa fazer gerar a explosão de vida que caracteriza normalmente estes ecossistemas. Além do mais, falamos de escavações com margens íngremes não preparadas ou pensadas para a vida selvagem e que muitas vezes a mantinham longe, apesar de tão perto. E de nada serve essa água na paisagem se não for acessível a quem precisa dela para garantir a funcionalidade de um ecossistema. E foi precisamente aqui que entrou o rewilding.

As primeiras intervenções
Em 2022, a Rewilding Portugal e a Mossy Earth iniciaram um conjunto de intervenções desenhadas para restaurar os processos hidrológicos da área. Ao contrário de projetos convencionais de engenharia ecológica, o objetivo não era desenhar um ecossistema. Era permitir que aquele que já existia emergisse em toda a sua funcionalidade e capacidade.
Para tal, foram identificados vários pontos onde a água abandonava rapidamente a paisagem através de antigos canais de drenagem e passagens estreitas criadas durante a exploração mineira. Nesses locais foram construídas barreiras estratégicas naturais utilizando os próprios materiais disponíveis no terreno e reforçadas com vegetação nativa, incluindo salgueiros, que se têm espalhado pela paisagem através de dispersão natural. Algumas passagens artificiais foram removidas ou bloqueadas. Antigos tubos de drenagem deixaram de acelerar o escoamento da água.
Falamos de pequenas intervenções à vista, mas que levam o seu tempo e que têm consequências extraordinárias na saúde de uma paisagem aquática. Ao reduzir a velocidade do escoamento, a água passou a espalhar-se pela paisagem de forma mais uniforme, inundando áreas que anteriormente permaneciam secas durante grande parte do ano e criando assim novos habitats aquáticos e semi-aquáticos. O resultado não foi apenas mais água. Foi mais tempo para a água e ter a água por mais tempo, em mais locais diferentes dos que anteriormente ocupava. E essa diferença muda e mudou tudo.

Quase o dobro da superfície de água
A evolução observada através de cartografia aérea de alta resolução revela com clareza a dimensão da transformação e a análise voltou a ser feita agora, praticamente quatro anos depois.
Em 2020, antes das intervenções, a área analisada apresentava 21.472 metros quadrados de superfície de água. Na primavera de 2023, poucos meses após a conclusão dos trabalhos de maquinaria e intervenção mais direta, esse valor já tinha aumentado na altura para 31.706 metros quadrados – um crescimento já significativo de 47,2%. Mas o resultado mais impressionante acabou por surgir nos anos seguintes.
À medida que a vegetação se estabeleceu, que os solos começaram a recuperar capacidade de retenção e que os novos sistemas húmidos estabilizaram, a superfície de água continuou a aumentar. Em abril de 2026 atingia já 40.743 metros quadrados. Estamos a falar de um aumento de 87,3% relativamente à situação anterior às intervenções, em apenas 3 anos e meio!
Num território mediterrânico marcado por secas recorrentes e crescente escassez hídrica, este é um resultado particularmente significativo e não justificado apenas por anos mais chuvosos, já que estes também têm sido seguidos por verões mais secos e vice-versa. E esta diferença não acontece apenas porque existe mais água na paisagem, mas sim porque existe uma paisagem verdadeiramente capaz de armazená-la.

Primeiro chegou a água. Depois chegou a vida.
O desenvolvimento do planeta obedece a essa regra e as imagens recolhidas ao longo destes quatro anos confirmam-na e mostram uma sequência ecológica fascinante.
Nas áreas intervencionadas, a água foi o primeiro elemento a regressar. E a ficar. A vegetação veio depois. Taboas, salgueiros e tantas outras plantas características de zonas húmidas começaram gradualmente a colonizar e ocupar as margens das lagoas e áreas inundadas em número e densidade. Aquilo que inicialmente eram superfícies abertas de água, expostas e de margens vazias, transformou-se progressivamente num mosaico complexo de habitats.
E onde surgem habitats diversificados, a biodiversidade responde. Entre a vegetação aquática reproduzem-se hoje em rãs-verdes, relas e rãs-ibéricas. As lagoas oferecem refúgio ao cágado-de-carapaça-estriada, espécie considerada Quase Ameaçada devido à perda generalizada de zonas húmidas em toda a Europa. Libélulas, escaravelhos aquáticos e inúmeros outros invertebrados ocupam nichos ecológicos que simplesmente não existiam antes. Nas margens inundadas alimentam-se aves limícolas e patos. As lontras e a garça-real aproveitam-se dos invasores lagostins-vermelhos, mantendo o seu número controlado e utilizando-os como importante alimento e parte da sua dieta. Nos céus circulam regularmente milhafres-pretos, águias-cobreiras e tantas outras aves que até já nidificam no local. A tímida cegonha-preta já se mostra e aparece por cá com regularidade.
Cada espécie representa uma peça adicional de um sistema ecológico que continua a ganhar complexidade com o passar do tempo.
Os pequenos charcos que mudam tudo
Uma das consequências mais interessantes das intervenções foi o aparecimento de charcos temporários mediterrânicos. Pouco espetaculares à primeira vista, estes habitats estão entre os mais raros e ecologicamente valiosos da paisagem mediterrânica, já que durante o inverno e a primavera acumulam água proveniente das chuvas e das cheias das lagoas adjacentes, mas com a chegada do verão tornam-se gradualmente isolados e acabam por secar.
Mas é precisamente esta alternância que os torna tão importantes. Sem peixes permanentes e outros predadores aquáticos, exatamente por secarem em certas épocas do ano, estes pequenos refúgios oferecem por isso mesmo condições ideais para a reprodução de anfíbios e numerosos invertebrados especializados, que precisam destas zonas húmidas sem predação para se reproduzirem em segurança. Ao criar condições para a formação destes habitats, este projeto não aumentou apenas a quantidade de água presente na paisagem, mas conseguiu também aumentar a sua diversidade ecológica.
O futuro começa agora
Apesar dos resultados alcançados, o Paul de Toirões continua apenas no início da sua recuperação. A sucessão ecológica está longe de terminar e o rewilding precisa de mais tempo ainda para produzir resultados cada vez mais visíveis e impactantes. Celebramos por isso as pequenas vitórias e impactos, mas sabendo que existe muito mais por fazer e acompanhar nos próximos anos.
A vegetação continuará a transformar os habitats existentes, novas espécies continuarão a colonizar a área e os próximos passos passam por devolver ainda mais processos naturais à paisagem. Por isso mesmo, a presença de grandes herbívoros por exemplo é fundamental, e existem planos para os trazer de volta a esta paisagem como já fizemos noutras áreas rewilding pelo território fora.
É ainda importante reforço das populações de coelho-bravo e outras pequenas presas, que consigam potenciar uma crescente utilização da área por predadores como o lobo ou, futuramente, o lince-ibérico. Tudo peças ainda em falta numa paisagem que se quer verdadeiramente funcional e que poderão acrescentar ainda mais novas camadas de complexidade a este sistema em franca recuperação.
Porque o objetivo nunca foi apenas criar um conjunto de lagoas. O objetivo sempre foi criar as condições para que a natureza voltasse a moldar o seu próprio futuro de forma funcional e completa. Quatro anos depois, a água continua a mostrar o caminho. E a vida continua a segui-la, como sempre fez até aqui.
E podes vir visitar e ver estes resultados com os teus próprios olhos! Contacta-nos para info@rewilding-portugal.com e marca a tua visita connosco.
