Onde o Douro e o Côa se abraçam

Agosto 18, 2026

Depois da Helena e do Tiago, a série Quem Fica embarca. A terceira história leva-nos ao Cais do Pocinho, em Vila Nova de Foz Côa, onde a Alexandra e o Fernando fundaram a Wild River Tours, passeios de barco que mostram o Douro Superior e o Vale do Côa de um lugar onde quase ninguém os vê. De dentro do rio.

Quem Fica · Wild River Tours, Foz Côa

Tudo começou com uma pergunta simples. Porque não? Passavam fins de semana e férias a navegar o Douro Superior no seu barco, muitas vezes a pernoitar no Cais do Pocinho, e reparavam que havia procura por atividades no rio e pouca ou nenhuma oferta em Foz Côa.Tinham o barco, o gosto por acolher e o desejo de uma vida mais calma e em maior conexão com a natureza. Faltavam poucos ingredientes para a receita ficar completa. No final de 2024, meteram mãos à obra.

Do rio, o território muda de escala. «Quando estamos na água, deixamos de olhar para o Douro apenas como uma paisagem. Passamos a estar dentro dela», contam. Os socalcos ganham outra dimensão, as encostas parecem mais imponentes, e há lugares neste troço do rio que, vistos do barco, parecem intocados, muitos só acessíveis assim.

É também a partir da água que se revela o que, lá de cima, passa despercebido: a forma como o Douro e o Côa se encontram e como as suas margens contam histórias distintas. Quando chegam à foz do Côa, a Alexandra e o Fernando estão perante o encontro de dois rios e de dois mundos. De um lado, o Douro, moldado durante gerações pelo trabalho das pessoas nas vinhas e nos socalcos. Do outro, o Côa, de paisagem mais selvagem e com um património arqueológico que recua milhares de anos. Estar ali, no meio dos dois, faz perceber que este é um território mais rico e mais complexo do que qualquer fotografia consegue mostrar.

E há o silêncio. «Um silêncio que hoje é difícil de encontrar», dizem, e que muda por completo a forma como se vive a experiência. Aquilo que mais surpreende quem entra no barco é, muitas vezes, o que não se consegue fotografar. A tranquilidade, a sensação de ter um rio só para si, uma liberdade que raramente se experimenta.

Há um sítio de que gostam de forma particular, a Ponte do Vale de Canivens, onde costumam parar antes de chegar ao Museu do Côa. Passa-se de barco por baixo da antiga ponte ferroviária, ancora-se com calma e, com alguma sorte, avistam-se algumas das espécies que marcam esta paisagem, como os grifos, o abutre-do-Egito, a águia-de-Bonelli, a águia-real ou a cegonha-preta. É também um lugar onde se pode nadar em segurança e experimentar stand-up paddle, ao abrigo do vento e das ondas de outras embarcações.

Os passeios são privados e feitos em pequenos grupos, famílias ou casais, e disso nasce uma intimidade rara. O contacto é próximo, a conversa flui, e não há guião gravado. Cada cliente é diferente, por isso cada viagem é única. Muitos dos que entram no barco acabam por se tornar amigos, ao ponto de convidarem o casal a conhecer as suas cidades e de lhes pedirem que os contactem quando por lá passarem.

Dessas viagens ficaram histórias que a Alexandra e o Fernando guardam com carinho. Uma vez levaram a bordo um apaixonado por vinho, com um conhecimento tão grande sobre as quintas que se avistam e sobre a história da região que os papéis quase se inverteram, e por momentos mais parecia ser ele o guia. Mais tarde, o cliente ainda lhes enviou um guia que preparou de propósito para os ajudar a melhorar e a crescer. É uma memória de que gostam de forma particular, porque mostra que também eles aprendem com quem entra no barco.

Noutro dos primeiros passeios, com um grupo de americanos, a conversa fluiu tanto que se distraíram todos das horas. Os visitantes acabaram por perder o comboio que os levava de volta à Régua, e foi o casal que os levou de carro. Ficaram verdadeiramente gratos, e ficou para a Alexandra e o Fernando um daqueles momentos que não se esquecem.É desse contacto que nasce o que mais os move, a certeza de que, ali, proporcionam momentos maravilhosos e memoráveis a quem os visita.

A Wild River Tours ainda é um projeto recente, e a Alexandra e o Fernando querem fazê-lo crescer e juntar novas atividades ao rio. Mas há uma convicção que não muda, e que soa a manifesto deste território. «Este território não precisa de ser transformado para ser valorizado. Precisa é de ser mais conhecido.» Por isso fazem questão de trabalhar com os produtores, os restaurantes e os alojamentos da região, na certeza de que uma experiência que vale a pena é a que deixa valor onde acontece. É essa a mesma ideia que une a Rede Côa Selvagem.

Para quem nunca imaginou ver este território a partir da água, a resposta deles é simples. Venham. O Douro Superior e o Côa vistos do rio não se explicam com fotografias. É preciso sentir o rio, ouvir o silêncio e ver as encostas de outro ângulo. E, durante algumas horas, deixar de olhar o rio para passar a fazer parte dele.

A Wild River Tours é membro da Rede Côa Selvagem. Entra no barco e vai conhecer o lado do Côa que só se vê de dentro.

Entrevista e edição do Visit Greater Côa Valley.

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