Depois da Helena e do Cantinho Café, a série Quem Fica leva-nos agora à Serra da Malcata, um dos cantos mais silenciosos do Grande Vale do Côa. É aqui que o Tiago guia banhos de floresta, uma prática nascida no Japão, o shinrin-yoku, que consiste em algo tão simples quanto raro. Estar na floresta com todos os sentidos abertos, sem pressa e sem destino.
Quem Fica · Tiago Alves da Malcata Eco Experience, Serra da Malcata
Passou boa parte da vida à beira-mar, no litoral urbano. Um dia trocou-o pelo interior e pela serra, sem sentir que estivesse a perder alguma coisa. «É nestes territórios que tenho as minhas raízes», conta, «por isso foi uma mudança natural.» O que o prende é a serenidade que destas paisagens transborda, a mudança das estações, cada uma com os seus «tons, aromas e sinfonias». E, acima de tudo, uma outra relação com o tempo. Aqui, diz, «o tempo parece ser apenas um conceito e não uma imposição». Foi na Malcata que sentiu a sua essência.
Um banho de floresta pouco tem a ver com uma caminhada guiada. Quem chega vem quase sempre à procura do belo, de algo exterior que possa «captar». O deslumbramento inicial entra pelos olhos. Mas o Tiago aprendeu a reconhecer o instante em que algo muda, quando os outros sentidos despertam a cada passo para dentro do bosque e a mente começa a ceder ao que a rodeia. Esse momento chega quando a pessoa começa a reparar no que tem à frente. «É aí que a pessoa chega de verdade», explica. «Quando o micro ganha escala na sua perceção.»
Procuram-no sobretudo curiosos, amantes da natureza que na maioria não fazem ideia do que esperar. Os perfis variam muito, e cada um traz a sua forma de estar. Nos casais e nas famílias, as sessões ganham outra densidade, com a floresta a servir de espaço seguro para emoções que aproximam as pessoas. As crianças olham para tudo «quase como um laboratório sensorial». E os mais velhos reconhecem naqueles verdes e azuis os cenários da própria infância, e trazem uma vontade genuína de partilhar memórias e saberes. Foi com um desses grupos que viveu uma das experiências que mais o marcaram, uma terapia de floresta ao longo de mês e meio com quinze pessoas da Universidade Sénior do Sabugal. Cada sessão num lugar diferente, cada encontro cheio de histórias e de «mezinhas» feitas com as plantas que iam encontrando. «Aprendi imenso com eles», diz, «e senti-me afortunado.»

Poder-se-ia pensar que, feito profissão, o encanto se gasta. Acontece o contrário. O guia não fica de fora, é quase sempre um participante ativo, e o mesmo lugar devolve-lhe sensações diferentes conforme a estação ou o seu estado de espírito. A natureza, lembra, é «um organismo vivo em constante transformação». O que mais o surpreende é a forma como as pessoas vivem esse organismo. Muitas vezes, no meio do silêncio, alguém evoca uma memória sua, ou de quem já partiu, e partilha-a ali, sem receio de julgamento, num espaço onde o silêncio também é bem-vindo.
Sobre o que a Malcata tem que não se encontra da mesma forma noutro lado, o Tiago hesita antes de responder. A serra, diz, está cheia de simbolismo, pela identidade das suas gentes e pela luta pela sua preservação, cujo eco ainda vive na memória da comunidade. Para ele, é uma «zona de limite» entre a civilização e uma herança antiga, um reencontro com o selvagem, e sempre foram esses lugares de fronteira que o fascinaram. «Foi na Serra da Malcata que encontrei o meu silêncio», diz, «e achei que esse silêncio merecia ser partilhado.»
Quando lhe perguntamos como leva as pessoas a soltarem-se, a resposta é de uma humildade desarmante. «É a própria pessoa que, aos poucos, se deixa levar pelos sentidos», explica. «O meu papel é apenas criar espaços e oferecer os convites certos.» Vivemos as nossas vidas cheias de rotinas, e ele está convicto de que uma tarde entre árvores tem, por si só, a força para nos devolver a nós mesmos.

É aqui que o trabalho do Tiago encontra a filosofia deste território. Criar espaços e oferecer os convites certos é, no fundo, o que o rewilding faz com a paisagem. Prepara as condições e dá tempo, deixando que a natureza siga o seu curso. Ele faz o mesmo com as pessoas.
E inscreve-se numa ideia que ganha cada vez mais força, a de que a natureza cura. É uma convicção antiga que só agora começa a ter o reconhecimento que merece. Em julho, a Mata do Buçaco tornou-se a primeira Floresta Terapêutica certificada da Península Ibérica, uma de apenas quatro no mundo. Mas quem já sentiu o efeito de uma manhã inteira entre árvores sabe que não é preciso um selo para o comprovar. Todo o contacto com a natureza guarda esse poder, e é provável que, num futuro próximo, isto deixe de ser novidade para passar a ponto assente.
Há uma última ideia do Tiago que fica a ecoar muito para lá da floresta. A de que só chegamos de verdade a um lugar quando o pequeno ganha escala, quando reparamos no detalhe que ao início nos passava ao lado. É, no fundo, o que está a acontecer a este território. Sozinho, cada projeto é uma coisa pequena, um alojamento, uma cerveja, uma quinta, um banho de floresta. Vistos juntos, ganham a escala de um vale a renascer. É isso a Rede Côa Selvagem, e é isso que o Tiago faz, à sua maneira, a cada pessoa que leva ao bosque.
No fim, o que ele gostava que ficasse é simples. Que as pessoas levem consigo a certeza de que a natureza nos transforma, e de que vale todo o esforço protegê-la. Por isso, o convite fica feito. Vem à Serra da Malcata olhar para a natureza com tempo. É bem provável que, algures no meio do silêncio, percebas que olhar para ela é também uma forma de olhar para dentro de ti.
A Malcata Eco Experience é membro da Rede Côa Selvagem. Marca a tua experiência e vem encontrar o teu silêncio. Entrevista e edição do Visit Greater Côa Valley.
