Há trinta anos que o Cantinho abre portas numa das encostas mais bonitas de Castelo Rodrigo. Nasceu em 1995, quando a aldeia entrava para a rede das primeiras dez Aldeias Históricas e vivia uma azáfama de obras, gente nova e vontade de futuro. Foi da vontade dos pais da Helena Sousa que surgiu, com uma ideia simples e rara para a época: criar um espaço preparado para receber quem chegava de fora, sem deixar de ser a casa de quem cá vivia. Em 2001, a Helena e o marido, o João, pegaram no projeto sozinhos. Fizeram dele mais do que o café da aldeia. Uma casa de sabores diferentes, de cerveja artesanal quando quase ninguém falava dela no Interior, de causas, de gente. Em 2025, depois de meses difíceis, a Helena reabriu o Cantinho a solo e reinventou-o de alto a baixo. Esta é a conversa que tivemos com ela.
Quem Fica · Cantinho Café, Castelo Rodrigo
O Cantinho e a aldeia parecem ter crescido juntos.
A nossa história confunde-se com a história recente da aldeia. Começámos precisamente quando Castelo Rodrigo vivia uma grande revolução, e como as novidades são sempre muito apreciadas neste território, começaram a chegar até nós imensos curiosos para conhecer o espaço. Servíamos petiscos que ainda hoje são recordados com saudade, e da curiosidade construiu-se, com mestria, uma fidelização muito feliz.
Aconteceu tanta coisa aqui. As noites em que a aldeia se juntava toda para jogar cartas, conviver, ver os jogos e resolver problemas. Muitos projetos e decisões nasceram nas nossas mesas cheias de gente com vontade de fazer acontecer. Sempre foi importante escolher parceiros que tivessem gente dentro. Somos um ponto de encontro dos vizinhos, dos amigos, da família, e de quem nos visita.

A cerveja artesanal foi um capítulo à parte.
A cerveja chegou num momento de crise internacional e, confesso, também pessoal. Precisávamos de algo que nos servisse de âncora. Foi quando entrou na nossa vida este mundo de sabores que estava a explodir, feito por gente que, como nós, o descobria com surpresa e admiração. Num impulso de clarividência, fizemos a primeira encomenda à Sovina, e a partir daí foi um crescendo de emoções.
O João estudou muito para me ensinar a mim e a tantos que chegavam aqui ávidos por saber e provar mais. Fizemos, e fazemos, um verdadeiro trabalho de evangelização. Sempre fomos uma escola, num território onde ainda só existe este espaço com cerveja. O João foi peça fundamental nesta história, e é justo que o seu nome fique ligado a ela.
Um ano depois de reabrir sozinha, o que foi possível redescobrir?
Que o amor a este espaço, à aldeia e ao território não esmoreceu, e até cresceu. O que me move é a vontade férrea de continuar este projeto de uma vida e de proporcionar experiências com memória a quem entra pela porta, seja quem entra todos os dias ou quem entra só uma vez. Para mim tem sido terapêutico, e ajudou-me imenso a ultrapassar tudo.
Tinha muitas ideias na gaveta e, apesar da dor da perda, consegui concretizá-las. Tenho até uma iniciativa em curso, “Há projetos felizes na minha aldeia”, que é uma chamada de atenção para todos os que dizem que aqui não há nada. Cabem lá ideias, pessoas e produtos incríveis, que mostram que ficar também é possível. Ficar, ou voltar, e encarar os desafios da interioridade como oportunidades.
As ideias novas, de onde vêm?
As ideias são parte do meu ser. Não consigo deixar de pensar “e se…”. Vêm da observação, de ouvir com atenção o feedback, de dar valor às sugestões, de reparar no brilho nos olhos de quem nos visita.
Neste primeiro ano a comandar o barco sozinha, concretizei dois sonhos. A remodelação do Cantinho, um desejo antigo dos dois, e a nossa cerveja Rewilding Yourself. Esta receita levou dentro, para além dos ingredientes normais, amor à causa e ao território, missão, arte, partilha, homenagem sincera ao João, emoção e muito sabor. Voltou também o projeto Cervejas com Causas, o continuar de um legado de quem acreditava que um café pode ser mais do que servir bebidas e ver o resultado ao fim do dia. Saí deste ano com o rumo consolidado e uma força que não sabia que tinha.

Os sabores que serve contam a região.
O lugar é de memória. Como servir algo para comer é logisticamente desafiante, procurei pôr na mesa tradição e memória afetiva com ideias simples. Os enchidos à moda cá de casa, as tostas de chouriça d’ossos e de farinheiro, a tosta vegetariana com produtos da horta dos vizinhos, ou a salada de carrapatos, que gera sempre uma conversa muito divertida com portugueses e estrangeiros.
Procuro parceiros incríveis. A Telma e o Xavier, da Quinta Vale do Tourão, o Bruno e a Fernanda, da Quinta da Barranca, com um azeite extraordinário, o Manuel e a Susana, da Agro Fernandes e Ribeiro, com as amêndoas e o azeite. Todos eles me ajudam a brilhar aqui no Cantinho. O chocolate artesanal que criámos com a Telma é um exemplo da alegria com que embarcamos nestas aventuras.
O que significa fazer parte da Rede Côa Selvagem?
É inspirador, desafiante e um orgulho. Conheci pessoas maravilhosas, com projetos incríveis e vontade de unir a sua experiência a uma missão em prol do território. O lema de que ninguém fica sozinho ou para trás dá-me uma confiança muito confortante. É a cultura de que o sucesso de uns é o sucesso de outros, e de um bem maior. Sinto que faço parte de algo extraordinário, e que o Cantinho faz a diferença.
O Cantinho de hoje não é o de ontem.
No último ano, o Cantinho e eu mandámos às urtigas o medo e a cautela, e deixámos entrar a liberdade de ser, estar e existir. O interior foi todo renovado, com mais cor, mais luz, mais conforto, mais causas e mais parcerias felizes. É um orgulho abrir a porta todos os dias e receber quem entra com uma boa energia.
Vejo uma mudança incrível nas pessoas, mais vontade de viver e criar memórias do que de registar avidamente tudo o que acontece. E há uma vontade enorme, de muita gente, de mostrar a quem nos visita que este território está vivo, ao contrário do que se apregoa. Contra o discurso confortável do interior coitadinho, a verdade é outra. Este território está vivo, a renascer, a crescer, em contínuo desafio. Depois de me deparar com este ser vivo, a única solução é viver intensamente e ser parte da solução.
Na esplanada do Cantinho, a vista alcança mais de 100 quilómetros e deixa ver, em direto, a natureza a ser ela própria. É lá, entre uma cerveja artesanal, uma limonada já famosa e os sabores dos produtores do vale, que a Helena continua a receber quem chega. Venham sentir essa energia.
O Cantinho Café é membro da Rede Côa Selvagem. Entrevista e edição do Visit Greater Côa Valley.

