Fojo do Lobo do Ermo das Águias recuperado e inaugurado para preservar a memória viva do território e promover a coexistência

Outubro 19, 2026

A recuperação desta estrutura, promovida pela Rewilding Portugal, valoriza um importante testemunho da presença histórica do lobo a sul do Douro. A inauguração aconteceu este fim-de-semana e integra os esforços de coexistência com o lobo-ibérico promovidos pelo projeto LIFE LUPI LYNX, combinando património, criação artística e um novo percurso pedestre.

O Fojo do Lobo localizado na área rewilding do Ermo das Águias, na freguesia de Alto do Palurdo, concelho de Pinhel, foi inaugurado este domingo, 18 de outubro, numa iniciativa promovida pela Rewilding Portugal em parceria com o Município de Pinhel. A recuperação desta estrutura histórica devolve visibilidade a um património que ajuda a compreender a relação ancestral entre as comunidades locais e o lobo-ibérico, criando um novo espaço de interpretação da paisagem, de educação e de visitação no Grande Vale do Côa.

Integrada na programação de Pinhel enquanto Município Embaixador 2026 do projeto LIFE LUPI LYNX, a inauguração contou com a presença da presidente da Câmara Municipal de Pinhel, Daniela Capelo, do diretor executivo da Rewilding Portugal, Pedro Prata, do artista Rui Miragaia e do investigador Francisco Álvares, assim como de muitos outros entusiastas, especialistas do setor e membros das comunidades locais. O encontro permitiu conhecer a estrutura recuperada e a intervenção artística criada para o seu interior, cruzando a história do território com o conhecimento sobre a ecologia e a conservação do lobo-ibérico.

Durante a iniciativa, Rui Miragaia apresentou o processo criativo e o significado da sua obra, enquanto Francisco Álvares abordou a presença histórica do lobo nestas paisagens, a sua relação com as comunidades humanas e os desafios da sua conservação. A visita constituiu também uma oportunidade para refletir sobre o valor dos fojos enquanto testemunhos materiais de uma história partilhada entre pessoas e vida selvagem. O Clube TT “Pinhel Fora-de-Estrada” também se associou ao evento, apoiando no transporte dos participantes.

O evento deste domingo terminou depois no Centro Rewilding, em Vale de Madeira, com a visualização do documentário “Variações Naturais – Sobre a nossa, nem sempre pacífica, convivência com lobos”.

Preservar a memória de um território de lobo

Os fojos são antigas estruturas destinadas à captura de lobos, construídas num contexto em que a proteção dos animais domésticos assumia uma importância central na subsistência das comunidades rurais. Representam, por isso, uma dimensão concreta da relação entre as populações humanas e este predador, marcada pela proximidade, pelo conflito e pela procura de formas de proteger os meios de vida e subsistência.

O exemplar localizado no Ermo das Águias enquadra-se na tipologia dos chamados “fojos de cabrita”: recintos delimitados por muros de pedra, para cujo interior o lobo era atraído através de um animal usado como isco. A configuração da estrutura permitia a entrada do predador, dificultando depois a sua saída.

A sua localização a sul do rio Douro confere-lhe particular relevância. A grande maioria dos fojos conhecidos na Península Ibérica concentra-se nos territórios montanhosos do Norte, destacando-se as serras da Peneda e do Gerês. A identificação de um fojo desta tipologia no concelho de Pinhel veio alargar o conhecimento sobre a distribuição destas estruturas em Portugal e sobre as práticas históricas associadas à presença do lobo.

Preservar este património permite manter viva a memória de Pinhel e da região do Côa enquanto território de lobo e transmitir às novas gerações conhecimentos sobre a pastorícia, a organização das comunidades e a transformação da paisagem. A recuperação oferece também um ponto de partida para discutir a coexistência no presente, reconhecendo as dificuldades do passado e dando a conhecer as ferramentas hoje disponíveis para compatibilizar a conservação da espécie com as atividades humanas.

“Este fojo faz parte da memória da região e de um passado recente em que o lobo teve uma presença muito próxima das comunidades. Preservá-lo permite reconhecer os desafios que essa relação colocou às pessoas e criar um espaço para falar sobre o futuro. Queremos que quem aqui vem compreenda melhor o papel do lobo em ecossistemas funcionais e conheça as soluções que podem ajudar a proteger o gado e a tornar a coexistência possível. Ao ligar património, arte e conservação, estamos também a criar novas razões para conhecer e valorizar este território”, afirma Pedro Prata, Diretor Executivo da Rewilding Portugal.

Uma intervenção artística que aproxima o visitante da vida selvagem

No interior do fojo foi instalado um conjunto escultórico da autoria de Rui Miragaia, que representa, em tamanho real, lobos num momento de caça a uma cabra-montesa. A obra acrescenta uma dimensão artística e interpretativa à visita, convidando o público a observar o lobo enquanto predador e parte integrante dos ecossistemas.

A conjugação entre a estrutura histórica e a criação contemporânea permite abordar diferentes dimensões da relação com a espécie: a memória da sua perseguição, o seu papel ecológico e a necessidade de construir condições para a coexistência. O fojo recuperado torna-se, assim, um espaço onde património cultural e conservação da natureza se encontram.

Uma ação integrada no LIFE LUPI LYNX

Este evento de inauguração do Fojo do Lobo do Ermo das Águias devidamente recuperado enquadra-se no projeto LIFE LUPI LYNX, coordenado pela Rewilding Portugal e cofinanciado pela União Europeia através do Programa LIFE. Esta iniciativa transfronteiriça procura criar condições sociais e ecológicas favoráveis à recuperação e à expansão natural do lobo-ibérico e do lince-ibérico em territórios a sul do rio Douro, em Portugal e Espanha.

O projeto combina o restauro de habitats e o aumento da disponibilidade de presas silvestres com medidas de prevenção de danos no gado, monitorização científica, capacitação de agentes locais e prevenção de crimes contra a vida selvagem. Inclui ainda ações de educação e sensibilização e o desenvolvimento de oportunidades económicas ligadas à natureza, envolvendo as comunidades na conservação destas espécies e dos seus habitats.

Além da Rewilding Portugal, o consórcio reúne a Associação BIOPOLIS/CIBIO, o Grupo Lobo, a Universidade de Aveiro (CESAM) e, do lado espanhol, a WWF España.

Neste contexto, a valorização do fojo contribui para a dimensão social e educativa do projeto: conhecer a história do lobo e compreender a sua relação com o território ajuda a promover um debate informado sobre a conservação e a coexistência.

Novo trilho e visitas regulares

A intervenção foi acompanhada pela criação de um trilho pedestre no interior do Ermo das Águias, área rewilding gerida pela Rewilding Portugal, que permite chegar ao fojo e conhecer a paisagem em que esta estrutura se insere.

Em breve, a Rewilding Portugal organizará visitas guiadas regulares para dar a conhecer o fojo, a intervenção artística e a história do lobo na região. Estas experiências permitirão ligar a descoberta do património ao trabalho de restauro ecológico desenvolvido no Ermo das Águias, reforçando a ligação entre natureza, cultura e comunidades locais.

Com esta recuperação, a Rewilding Portugal pretende assegurar que a memória do lobo permanece acessível e integrada na identidade do território, contribuindo simultaneamente para novas oportunidades de educação, visitação e valorização do Grande Vale do Côa.

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