Gravuras rupestres do Côa: memórias de uma paisagem selvagem

Gravuras rupestres do Côa: memórias de uma paisagem selvagem

Uma história de milhares de anos entre pessoas e vida selvagem

Muito antes de o Grande Vale do Côa se tornar a referência internacional para a conservação e restauro da natureza que é hoje em dia, estas paisagens já testemunhavam uma relação profunda entre os seres humanos e a vida selvagem.

Nas margens do rio Côa, milhares de figuras gravadas na rocha preservam a memória de um mundo habitado por grandes animais. Cavalos selvagens, auroques – os antepassados selvagens do gado doméstico – veados e cabras-montesas foram representados por comunidades humanas do Paleolítico, que deixaram nesta paisagem um dos mais extraordinários conjuntos de arte rupestre ao ar livre do mundo.

Estas imagens são muito mais do que expressões artísticas de um passado distante. Constituem testemunhos de uma relação antiga entre as pessoas, os animais e o território, e convidam-nos a olhar para a natureza não apenas pelo que é hoje, mas também pela história ecológica que a moldou. Uma história de coexistência, feita de avanços e recuos.

 


O que nos contam as gravuras

As gravuras do Grande Vale do Côa representam alguns dos grandes animais que habitavam a Península Ibérica durante a Pré-História, incluindo cavalos, bovinos selvagens, veados e caprinos.

Para as comunidades humanas daquele tempo, estes animais faziam parte do mundo quotidiano, material e simbólico. Eram presenças importantes nas paisagens que percorriam e observavam, e as suas representações revelam a atenção dedicada às formas, aos movimentos e às características dos animais.

Não conhecemos todas as razões que levaram estas comunidades a gravar determinadas figuras na pedra. As imagens poderiam ter significados simbólicos, sociais ou espirituais que hoje não conseguimos reconstruir por completo. Sabemos, contudo, que a arte rupestre do Côa constitui um testemunho excecional da forma como os nossos antepassados se relacionavam com o mundo natural. Classificado como Património Mundial pela UNESCO em 1998, o conjunto de arte rupestre do Vale do Côa é reconhecido pelo seu valor artístico e pela importância que tem para a compreensão da vida social, económica e espiritual das comunidades humanas do Paleolítico.

NATGEO / ANYFORMS

Uma paisagem moldada pela vida selvagem

Os animais representados nas rochas lembram-nos que as paisagens ibéricas foram, durante milhares de anos, percorridas por grandes herbívoros selvagens. Estes animais não eram apenas parte da fauna.

Através da alimentação, do movimento e da interação com a vegetação, os grandes herbívoros contribuíam para moldar os ecossistemas.

O pastoreio, o consumo de arbustos e plantas herbáceas, a dispersão de sementes e a criação de pequenas clareiras ajudavam a produzir paisagens diversificadas, onde diferentes espécies encontravam alimento e abrigo.

A presença dos grandes herbívoros influenciava também as relações entre espécies. Os animais que morriam naturalmente ou eram predados constituíam recursos para necrófagos e outros organismos, contribuindo para o funcionamento das cadeias alimentares.

A vida selvagem tem uma história profunda neste território e desempenhou um papel importante nas paisagens que os seres humanos conheceram.

Do passado ao presente: a ligação ao rewilding

O rewilding procura recuperar a natureza através do restauro de processos naturais, da recuperação da vida selvagem e da criação de condições para que os ecossistemas funcionem com maior autonomia. No Grande Vale do Côa, esta visão passa, entre outras prioridades, por favorecer o regresso da vida selvagem, recuperar o papel ecológico dos grandes herbívoros e promover paisagens mais diversas, funcionais e resilientes.

Ao longo dos séculos, as transformações no uso do solo, a perseguição e o desaparecimento de grandes herbívoros de muitas regiões europeias alteraram o funcionamento de numerosos ecossistemas. Mais recentemente, o abandono de atividades agrícolas e pastoris em áreas rurais contribuiu para mudanças na vegetação e para a acumulação de biomassa combustível em determinados habitats.

O pastoreio por herbívoros pode ajudar a criar mosaicos de vegetação, favorecer a biodiversidade e contribuir para paisagens mais preparadas. É neste contexto que as gravuras do Côa ganham um significado especial para a Rewilding Portugal: recordam-nos que os grandes animais selvagens fazem parte da história natural e cultural desta região e ajudam-nos a explicar por que razão o seu papel ecológico importa também no presente e deve ser recuperado.

Imaginar o futuro sem esquecer o passado

A visão de rewilding para o Grande Vale do Côa não consiste em recriar exatamente a paisagem de há milhares de anos. Os ecossistemas mudam ao longo do tempo, e o território de hoje é também o resultado de séculos de presença e intervenção humana. A presença de grandes herbívoros, como os cavalos Sorraia e os bovinos Tauros utilizados em projetos de pastoreio natural, pode contribuir para uma paisagem mais funcional e completa, adaptada aos dias de hoje. Estes animais não são uma reprodução literal da fauna pré-histórica, mas podem desempenhar funções ecológicas importantes nos ecossistemas atuais.

As gravuras rupestres do Côa são uma herança cultural de valor universal. Preservam imagens de animais que marcaram profundamente a experiência humana e lembram-nos que a nossa história nunca esteve separada da história da natureza. Olhá-las através da perspetiva do rewilding significa reconhecer que o património cultural e o restauro ecológico podem enriquecer-se mutuamente: um ajuda-nos a compreender a longa relação entre as pessoas e a vida selvagem; o outro procura criar condições para que essa relação possa continuar a evoluir num território mais diverso, funcional e resiliente.

As marcas gravadas do passado são uma janela e um convite a pensar no futuro de uma paisagem onde a natureza, a cultura e as comunidades humanas continuam profundamente ligadas.

Descubra o trabalho da Rewilding Portugal no Grande Vale do Côa e saiba como estamos a contribuir para o regresso da vida selvagem e a recuperação dos processos naturais.

Visitar as Gravuras Rupestres connosco

Pode visitar as gravuras rupestres com um guia especializado e certificado que fará a ligação diretamente com a narrativa de rewilding e o que está a ser feito nesse sentido


 

  • Este campo é para efeitos de validação e deve ser mantido inalterado.