Afinal, o que comem os abutres?

Julho 23, 2021

O aumento de queixas de ataques de abutres tem causado diversos momentos de tensão entre as comunidades locais. É importante cada vez mais analisar as situações individualmente e unir os vários interessados para encontrar soluções que evitem situações como estas e que possam melhorar a coexistência entre as espécies e as comunidades locais envolventes.

Grifos. Créditos: Rewilding Europe

Os abutres em Portugal

Na Península Ibérica, existem quatro espécies de abutres: o grifo (Gyps fulvus), o abutre-preto (Aegypius monachus), o britango ou abutre-do-Egito (Neophron percnopterus), e o quebra-ossos (Gypaetus barbatus), ocorrendo atualmente as três primeiras espécies de forma regular em Portugal, mas todas em risco de extinção, com exceção do grifo que apresenta populações mais numerosas e estáveis.

Os abutres são aves necrófagas, que se alimentam quase exclusivamente de cadáveres de animais mortos. Ao contrário de outras grandes aves, como as águias, os abutres não possuem bico e garras afiadas nem um voo ágil adaptado a caçar animais vivos e em bom estado de saúde. Apenas o mais pequeno dos abutres ibéricos, o britango, caça ocasionalmente pequenas presas, sobretudo répteis como lagartos e cágados.

A biologia dos abutres está bem adaptada à sua alimentação necrófaga. A grande envergadura das asas permite-lhes realizar voos planados de dezenas ou centenas de quilómetros em busca de alimento. Os abutres possuem uma excelente visão que utilizam para detetar cadáveres à distância. Ao contrário do que muitas vezes é dito, os abutres não detetam carcaças ou animais moribundos através do cheiro, a decomposição ou a sangue, uma vez que todas as espécies de abutres da Europa, Ásia e África têm uma capacidade de olfato muito fraca. Apenas algumas espécies de abutres das Américas usam o cheiro a carne em decomposição para encontrar alimento.

Britango. Créditos: WildLife Portugal

 

Situações de conflito reportadas e possíveis motivos

Desde a década de 90 que se tem assistido a um aumento de queixas de ataques mortais a animais domésticos na Península Ibérica, sobretudo a gado ovino e bovino, por parte de uma espécie de abutre em particular, o grifo. No entanto, um estudo sobre o tema averiguou que a maioria dos casos corresponde a animais já mortos por outras causas.[i]. Quando se trata efetivamente de alimentação de animais vivos, existem normalmente outros fatores envolvidos. Se um animal doméstico ou selvagem estiver em estado moribundo devido a ferimentos graves, com má nutrição ou sintomas avançados de doença, e incapaz de se mover, pode despertar também a atenção dos abutres. Na maior parte destes casos, quando os abutres se aproximam e se tentam alimentar de um animal ainda vivo, estão apenas a antecipar um desfecho quase sempre inevitável devido a outras razões.

Animais domésticos em partos complicados também podem estar mais vulneráveis, por ficarem temporariamente imobilizados, e aos olhos de um abutre se assemelharem a um cadáver. Algumas raças de gado menos rústicas mas mais produtivas, como a Charolesa, amplamente utilizada na região do Grande Vale do Côa, apresentam maior risco por terem partos mais difíceis e que necessitam de assistência humana, sendo o gado em que se registam mais ataques de grifos pelos motivos acima referidos. Estes riscos podem ser evitados se os animais parirem dentro de estruturas cobertas ou forem guardados por um pastor ou cães de gado.

Existe ainda o caso da raça Limousine que, não sendo uma raça de parto difícil, é aconselhado que enquanto espécie de grande porte se use a inseminação ou então se opte antes pela monta natural de uma raça de porte médio/pequeno ou que tenha como principal aptidão a facilidade de parto, como é o caso da Angus, raça exótica, ou raças autóctones como é o caso da Arouquesa ou da Jarmelista. Além disso, é necessário na grande maioria dos casos, a vaca ter mais de 18 meses de idade e ter tido uma boa alimentação para estar pronta e ter corpo suficiente para ter um parto normal e sem complicações de maior.

Para os produtores que, ainda assim, optam por este tipo de raças de parto mais difícil e que não tenham tempo para estar por perto a monitorizar a situação por 24 horas na semana esperada para o parto, é essencial optarem por sensores de parto, a única maneira completamente eficiente para se evitar perdas de animais durante o parto, que podem acontecer por variados motivos e não apenas ataques a animais débeis nesse momento.

 

Mudanças de paradigma na pecuária

O aumento de queixas de ataques de abutres e de outros animais selvagens ao gado coincide com grandes alterações que têm ocorrido durante as últimas décadas nas práticas pecuárias na Europa. Atualmente, grande parte do gado está em regime extensivo e pasta em parques durante o ano todo, com uma presença cada vez mais reduzida de pessoas e cães de gado, o que facilita o contacto entre os animais domésticos e a vida selvagem. Por outro lado a ausência do criador de gado no momento da morte dos seus animais dificulta a apuração das causas, e mais tarde quando se depara com o cadáver rodeado de vários abutres poderá erradamente assumir que estes são os responsáveis.

Na verdade, os abutres sempre desempenharam um importante papel na paisagem, removendo os cadáveres, tanto de animais selvagens como de gado em regime extensivo, prevenindo a propagação de doenças e a contaminação do solo e da água. Quase todos os agentes patogénicos são destruídos pelo sistema digestivo dos abutres[ii]. Um bom exemplo disso mesmo é que uma das espécies, o abutre-preto, alimenta-se com frequência de carcaças de coelhos-bravos, diminuindo o risco de contágio das doenças que têm causado o declínio desta espécie, nomeadamente a mixomatose e a febre hemorrágica.

Abutre-Preto. Créditos: Rewilding Europe
Markus Varesvuo/Wild Wonders of Europe

Após a implementação de nova legislação sanitária no rescaldo da epidemia de encefalopatia espongiforme bovina (a “doença das vacas loucas”), as populações europeias de abutres perderam a maior parte do alimento disponível, uma vez que as novas medidas obrigavam à remoção imediata dos cadáveres do campo. Por outro lado, apesar de ilegal, a prática de abandono de cadáveres nas pastagens não foi totalmente eliminada. Resultando muitas vezes em situações com maior risco sanitário, os animais mortos são às vezes amontoados em locais escondidos das autoridades responsáveis pela fiscalização, e onde as espécies necrófagas têm maior dificuldade em decompor o cadáver, levando ao seu apodrecimento lento e a uma maior probabilidade de contaminação do meio.

Recentemente, nova legislação tem sido posta em prática em vários países, incluindo em Portugal, prevendo o licenciamento da deposição legal e controlada de cadáveres em explorações pecuárias, de forma a que as aves necrófagas possam desempenhar de novo o seu papel de “brigadas de limpeza”.

A recuperação da disponibilidade alimentar para as aves necrófagas, através da implementação destas medidas e da recuperação das populações de herbívoros selvagens, assim como a adoção de boas práticas de maneio do gado, contribui para uma convivência harmoniosa em que todos saem a ganhar.

No âmbito do projeto “Promover a Renaturalização do Grande Vale do Côa”, a Rewilding Portugal e os seus parceiros estão a trabalhar com os criadores de gado locais e com as autoridades responsáveis, nomeadamente o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a Direcção-Geral de Veterinária (DGAV), para implementar estas medidas no território.

 

Crimes contra a vida selvagem

Estas novas situações de conflito têm, nos últimos anos, causado diversos momentos de tensão entre as comunidades locais, nomeadamente os produtores de pecuária com prejuízos, e esta espécie necrófaga, o que tem levado a um crescente número de crimes praticados contra a vida selvagem e mais propriamente contra esta espécie, com a existência de diversos registos de casos de envenenamento.

Créditos: GNR

O último caso conhecido reporta-se ao mês de Junho, onde foram encontrados os cadáveres de 54 grifos, um abutre-preto e um milhafre-preto em Salamanca, na localidade de Monterrubio, depois de terem consumido carne de ovelha que havia sido deixada no local para estes. Foram realizadas diversas análises tanto aos cadáveres como ao resto da carne recolhida no local, que identificaram a intoxicação como sendo causada por carbofurano, um dos pesticidas carbamatos mais tóxicos e de uso proibido na União Europeia (UE) desde Dezembro de 2007[iii].

Também em Portugal têm sido registado alguns casos de envenenamento desta espécie, nomeadamente no Grande Vale do Côa em outubro do ano passado, onde três grifos foram descobertos com suspeitas de envenenamento em Vilar Formoso, tendo essas suspeitas sido confirmadas depois de mais análises aos cadáveres[iv]. Já no ano anterior tinha sido confirmado o envenenamento de dois britangos no Parque Natural do Douro Internacional após necrópsia realizada aos mesmos[v].

É importante cada vez mais unir os vários interessados para encontrar soluções que evitem situações como estas e que possam melhorar a coexistência entre as espécies e as comunidades locais envolventes.

 

 

O projeto “Promover a Renaturalização do Grande Vale do Côa” é financiado pelo Endangered Landscapes Programme e coordenado pela Rewilding Europe, em parceria com a Rewilding Portugal, a Universidade de Aveiro, a Associação Transumância e Natureza e a Zoo Logical.

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[i] Margalida, A, Campion, D. & J. Donazar (2014) Vultures vs livestock: conservation relationships in an emerging conflict between humans and wildlife. Oryx, 48(2), 1-5

[ii] Houston, D.C., Cooper, J.E., 1975. The digestive tract of the Whiteback griffon vulture and its role in disease transmission among ungulates. Journal of Wildlife Diseases 11, 306-313.

[iii] https://www.wilder.pt/historias/matanca-de-56-abutres-em-espanha-deveu-se-a-envenenamento-com-pesticida-proibido-na-ue/

[iv] https://www.forumcovilha.pt/noticias/noticia/?idn=18833

[v] https://observador.pt/2018/11/15/duas-aves-morreram-envenenadas-no-parque-natural-do-douro-internacional/

 

 

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