Fechamos esta série com a espécie mais controversa das cinco: o urso-pardo. Não porque seja perigoso – é, na verdade, um dos grandes mamíferos europeus com que é mais fácil coexistir – mas porque é grande, porque é um predador, e porque a sua ausência de Portugal parece, à primeira vista, definitiva. Não é.

Muito mais do que um predador
A imagem popular do urso é a de um caçador. E é — mas é sobretudo um omnívoro que opera em múltiplos níveis do ecossistema ao mesmo tempo. Na primavera e no verão, entre 70 a 80% da sua dieta pode ser vegetal: bagas, frutos, raízes, insetos. É um dos maiores dispersores de sementes da Europa, capaz de percorrer dezenas de quilómetros por dia e depositar sementes longe da planta-mãe, muitas vezes já acompanhadas de fertilizante natural. A regeneração de florestas de montanha está intimamente ligada à sua presença.
É também um engenheiro de solos: as escavações em busca de tubérculos e larvas arejam e perturbam o solo, promovendo diversidade vegetal. As carcaças que deixa — ou que abre como necrófago oportunista — alimentam dezenas de outras espécies. E, como predador, regula comportamentos de presas e de outros carnívoros, mesmo sem ser o mais eficiente a caçar (esse título pertence ao lobo).
Em Portugal, o urso esteve presente até ao século XIX, com registos históricos na Serra da Estrela, na Peneda-Gerês e no nordeste transmontano. Segundo a investigação de Paulo Caetano e Miguel Brandão Pimenta (autores do livro Urso Pardo em Portugal — Crónica de uma Extinção, 2017), o último urso morto em território nacional foi abatido no Gerês em 1843. Não desapareceu por falta de habitat: foi extinto por perseguição direta — caça, armadilhas, veneno.
O exemplo dos Pirenéus
Para perceber o que é possível, vale a pena olhar para um caso de reintrodução formal, geograficamente próximo: os Pirenéus.
Ao longo do século XX, a caça e o envenenamento levaram a população pirenaica quase à extinção. Em meados dos anos 1990, restavam apenas cinco indivíduos, sem viabilidade biológica. A subpopulação ocidental, no Béarn francês, estava ainda mais reduzida — dois ou três últimos indivíduos autóctones. Em 1 de novembro de 2004, a última fêmea de linhagem pirenaica pura, Cannelle, foi abatida por um caçador durante uma batida ao javali em Urdos, na Vallée d’Aspe. O seu cria, de cerca de oito meses, sobreviveu. O episódio provocou consternação em toda a Europa e o então Presidente francês, Jacques Chirac, classificou-o como uma grande perda para a biodiversidade francesa e europeia.
Ainda antes dessa perda simbólica, em 1996, o governo francês e a associação ADET-Pays de l’Ours tinham lançado o primeiro programa formal de reintrodução, nos Pirenéus centrais. Nesse ano foram libertadas duas fêmeas grávidas provenientes da Eslovénia, seguidas de um macho em 1997. Nos anos seguintes juntaram-se mais oito exemplares, dois deles na zona ocidental — onde tinham vivido os últimos ursos autóctones. No total, onze indivíduos, todos de origem eslovena. A morte de Cannelle, em 2004, viria a acelerar uma segunda vaga de reintroduções em 2006.
A recuperação tem sido consistente desde então. O relatório oficial do Réseau Ours Brun, coordenado pelo Office Français de la Biodiversité (OFB) e publicado em março de 2026, detetou um mínimo de 108 ursos nos Pirenéus em 2025. Um modelo estatístico de captura-marcação-recaptura estima a população real entre 109 e 143 indivíduos, com valor médio de 130 — um crescimento anual médio de 11,53% desde 2006. A área de distribuição cobre atualmente cerca de 7.000 km², repartidos por França, Espanha e Andorra.
Um estudo de Sanz-Pérez e colegas, que analisou a estrutura espacial da população pirenaica por sexo e idade entre 2017 e 2021, ajuda a explicar o ritmo desta expansão: a frente de dispersão é dominada por machos jovens e subadultos, enquanto fêmeas e juvenis permanecem concentrados no núcleo central. Esta assimetria — resultado da filopatria das fêmeas, que tendem a não se afastar da zona de nascimento — é o principal travão à expansão geográfica e o argumento científico mais forte a favor de novas translocações de fêmeas para zonas periféricas com habitat adequado.
Coexistência: difícil, mas gerível
Os ursos atacam colmeias e ovelhas em pastagens de altitude, e há tensão real com comunidades pastoris, sobretudo em França. Mas a experiência acumulada ao longo de três décadas mostra que a coexistência é tecnicamente viável quando há investimento nos sistemas de proteção certos. O projeto LIFE PirosLife, implementado na Catalunha entre 2014 e 2019, demonstrou que rebanhos protegidos com vedações elétricas, pastores e cães de guarda tinham uma probabilidade de ataque várias vezes menor do que rebanhos desprotegidos. Existem ursos “especialistas” que aprendem a contornar vedações simples, exigindo barreiras reforçadas — mas são a exceção, não a regra, e há soluções técnicas cujos custos se amortizam em poucos anos. Um sistema de compensação financeira para perdas atribuíveis a ursos, associado a programas de envolvimento comunitário, tem sido central para que a oposição, ainda que persista, não trave a recuperação da população.
E Portugal?
A ideia de reintroduzir o urso no norte de Portugal pode parecer ambiciosa — mas assenta em factos ecológicos concretos, e merece ser considerada como objetivo de longo prazo no horizonte do Plano Nacional de Restauro da Natureza.
A subpopulação ocidental da Cordilheira Cantábrica — estimada em várias centenas de indivíduos, centrada em Astúrias e Leão — é a mais próxima de Portugal, com distribuição que já chega à Galiza, na fronteira direta com o norte do país. As serras do noroeste português, como o Gerês e Montesinho, partilham a mesma composição florística e o mesmo clima atlântico húmido que caracteriza o habitat ocupado hoje pelos ursos cantábricos: florestas de carvalho, faia e bétula, matagais de giesta e urze, pastagens de altitude, rios com salmão e truta.
Um estudo publicado em 2025 na revista Scientific Reports, com base em inquéritos a populações portuguesas e espanholas, encontrou atitudes globalmente positivas em relação ao urso nas regiões portuguesas com potencial para o acolher — e atitudes ainda mais favoráveis nas comunidades espanholas com longa convivência com o animal, sugerindo que a familiaridade atenua o medo em vez de o aumentar.
E há um episódio concreto que torna esta possibilidade menos abstrata. Em finais de abril de 2019, um urso-pardo atravessou a fronteira a partir da região de Sanabria (Castela e Leão) e foi detetado no Parque Natural de Montesinho, em Bragança — o primeiro registo confirmado em Portugal desde 1843. O ICNF, em coordenação com as autoridades espanholas, monitorizou o animal através de armadilhas fotográficas, pegadas e pelo recolhido. Pelo caminho, o urso consumiu mais de 50 quilos de mel de um apicultor local, Luís Correia, que disse à imprensa que o animal era bem-vindo e que gostaria que a sua presença se tornasse regular. O animal não voltou a ser detetado — era provavelmente um macho jovem em dispersão, exatamente o padrão que os estudos descrevem: são os machos jovens que chegam primeiro às áreas periféricas.
Este episódio não prova que uma população se vá fixar em Portugal amanhã. Mas demonstra duas coisas: que a distância entre as populações cantábricas e o norte do país já não é intransponível para animais em dispersão, e que, quando o urso chegou, quem estava no terreno reagiu com curiosidade, não com hostilidade.
O que pode ser feito agora
Não se trata de propor a libertação de ursos em Portugal amanhã. Trata-se de defender que o Plano Nacional de Restauro da Natureza identifique as serras do norte como zonas de potencial futuro para a espécie, e que se avance desde já em três frentes: uma avaliação científica rigorosa da capacidade de carga dessas serras; um processo de diálogo com as comunidades rurais da região, aprendendo com os modelos de coexistência testados em toda a Europa; e uma conversa técnica e diplomática com as autoridades espanholas sobre as perspetivas de conectividade e expansão natural da população cantábrica em direção a Portugal.
A expansão natural não pode ser excluída à partida. A subpopulação ocidental da Cantábrica já chegou à Galiza — a poucas dezenas de quilómetros da Serra do Gerês. Se o habitat for mantido e a pressão humana gerida, a fronteira pode simplesmente deixar de ser um obstáculo.
O urso não é uma espécie fácil: exige espaço, exige coexistência ativa, exige capacidade de gestão de conflitos. Mas os Pirenéus mostram que a reintrodução formal pode funcionar mesmo numa paisagem humanizada — e que os fatores decisivos de sucesso não são técnicos, mas políticos: vontade de avançar, sistemas de compensação justos e envolvimento genuíno das comunidades locais. E as Astúrias mostram que a coexistência sustentada pode transformar o urso num ativo económico e identitário. Porque onde há urso, há turismo de natureza. E onde há turismo de natureza, há razões para ficar numa região que, de outra forma, continua a perder população.