Os dois Técnicos de Rewilding da Rewilding Portugal, envolvidos na monitorização de castor e responsáveis pela descoberta no ano passado, contam-nos na primeira pessoa como foi este processo e quais são os próximos passos para continuar a acompanhar este progresso nos próximos tempos.

Como e quando foi detetado o primeiro sinal fiável da presença de castor em território português e qual foi o momento exato em que perceberam que “é mesmo um castor” e não outra espécie ali presente?
Quando detetámos uma pequena árvore tombada com muitas roeduras e muitas lascas de madeira acumuladas no mesmo sítio no solo. Mais nenhuma espécie faz isso. Foi em março de 2025, mas o nível de água no rio Douro estava muito alto e não existiam condições para colocar câmaras de armadilhagem fotográfica. Voltámos em maio e vimos que não só continuavam a existir indícios frescos no mesmo local, como descobrimos outras árvores roídas ao longo do rio. Colocámos várias câmaras e ao fim de alguns dias tivemos logo as primeiras fotos e vídeos do castor, graças a duas câmaras que foram inundadas pela subida do nível do rio.
Que métodos de monitorização foram utilizados ao longo dos últimos anos para acompanhar a aproximação do castor à fronteira?
Fomos percorrendo transectos de 500 metros ao longo da parte final do Tormes, onde estava o núcleo populacional espanhol, e as margens do Douro, cerca de 2 vezes por ano. Ambas as margens destas linhas de água foram prospectadas em busca de indícios de presença, sobretudo marcas de roeduras em árvores. Com este método conseguimos acompanhar a expansão natural dos castores ao longo do Rio Tormes, até decidirmos dedicar mais esforço à monitorização no rio Douro, a cada visita feita ao Tormes encontrávamos indícios cada vez mais próximos de Portugal. A armadilhagem fotográfica foi usada do lado português após vermos os primeiros indícios.
Que tipo de dados ainda estão a recolher agora e o que esperam aprender com a continuação da monitorização?
Vamos continuar a monitorizar a área com os mesmos métodos, focando-nos apenas no rio Douro. Agora que sabemos que a espécie está presente no local, as câmaras vão ser mais importantes para tentarmos perceber se existem vários indivíduos e se estão estabelecidos no local. Estamos curiosos para saber como se vão comportar neste troço do rio que oferece condições mais desfavoráveis do que no Tormes. Temos muito interesse em documentar a expansão da espécie no território português. No futuro provavelmente alargaremos a monitorização à zona onde o rio Ulces desagua no Douro, visto que recentemente foram encontrados também sinais de castor nesse rio.
É provável que a presença de castor naquela zona continue a aumentar ou terá sido uma visita esporádica?
Ainda não sabemos se o animal que registámos esteve lá temporariamente, ou se de facto já há um território estabelecido. Mas parece-nos extremamente provável que a espécie se continue a expandir para o Douro, apesar de existirem potenciais barreiras (grandes barragens) que podem retardar a sua dispersão, e de em muitos locais o habitat não ser ideal, com margens muito rochosas e poucas árvores. Mas no final de contas, os castores juvenis provenientes das familias “espanholas” terão de encontrar o seu próprio território e expandir pelo Douro.

O que esta descoberta significa, pessoalmente, para cada um de vocês?
André: Para mim foi um momento de muita alegria, não é todos os dias que se documenta o regresso de uma espécie após vários séculos de extinção em Portugal! Foi o resultado de um esforço consistente e desafiante em campo que acabou por dar frutos. Mas o que me deixa mais feliz é ter esta espécie tão importante de volta.
Pedro: Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida de biólogo, fazer o primeiro registo de uma espécie-chave extinta em Portugal há séculos não é algo que sonhamos sequer fazer quando estamos a estudar na Universidade. O regresso desta espécie é um sinal de esperança para os nossos ecossistemas cada vez mais atacados pela ação do Homem, e estar na fila da frente a ver o regresso de espécies extintas tão importantes como o castor é extremamente gratificante e dá vontade de continuar a trabalhar em prol da Conservação da Natureza.