Deposição legal de carcaças promete um futuro melhor para as necrófagas no Grande Vale do Côa

Março 21, 2025

Com a ajuda da Rewilding Portugal, foi recentemente concedida ao primeiro proprietário no Grande Vale do Côa, no concelho do Sabugal, uma licença para deixar carcaças de gado no campo. Espera-se que este momento marcante para a conservação dos abutres conduza à atribuição de mais licenças, ampliando os benefícios para estes icónicos necrófagos, para os agricultores locais e para a sociedade em geral.

A primeira atribuição de uma licença de deposição de carcaças no Grande Vale do Côa é um momento marcante para os esforços locais de conservação da fauna. Juan Carlos Muñoz
A primeira atribuição de uma licença de deposição de carcaças no Grande Vale do Côa é um momento marcante para os esforços locais de conservação da fauna. Juan Carlos Muñoz
Juan Carlos Muñoz / Rewilding Europe

Um momento pioneiro

No topo de uma colina rochosa da sua quinta de 80 hectares, na parte sul do Grande Vale do Côa, perto da Serra da Malcata, Albano Alavedra deixa os corpos de duas cabras recentemente mortas. Depois retira-se para assistir ao espetáculo inevitável. Em pouco tempo, um grupo de grifos junta-se no céu. Sozinhos ou aos pares, começam a descer, com as penas primárias das suas enormes asas a arranhar o ar. Em breve, uma pequeno grupo de aves reúne-se no chão poeirento, disputando as carcaças. Com o tempo, não restará nada além de alguns ossos espalhados.

Esta reunião de abutres não é apenas uma exibição cativante de necrófagos, mas um momento marcante para o regresso dos abutres à paisagem local. Após uma espera de cinco anos, e com o apoio contínuo da equipa da Rewilding Portugal, Albano obteve finalmente uma licença do governo para deixar carcaças de gado no campo gratuitamente, através da constituição legal de uma APAAN (Área Privada para Alimentação de Aves Necrófagas). A partir de janeiro deste ano, em vez de ser obrigado a remover os corpos das cabras mortas da sua quinta – o que leva tempo e dinheiro – pode deixar que os abutres façam o trabalho por ele.

 

A expansão dos locais de deposição gratuita de carcaças em Portugal e em toda a Europa beneficiará os abutres, os agricultores e a sociedade em geral. Georgi Kurtev
A expansão dos locais de deposição gratuita de carcaças em Portugal e em toda a Europa beneficiará os abutres, os agricultores e a sociedade em geral. Georgi Kurtev
Georgi Kurtev

Bom para os abutres…

O local de deposição de carcaças de Albano beneficiará não só os grifos, que estão a prosperar no Grande Vale do Côa, mas também os abutres-pretos, que são bem mais raros. A sua exploração caprina, composta por cerca de 300 cabras, situa-se perto de uma colónia destas aves, descoberta pela Rewilding Portugal na Reserva Natural da Malcata, em 2021. Com 18 casais, esta é neste momento a terceira maior colónia de todo o país.

“Os locais de deposição de carcaças são, de facto, melhores para os abutres-pretos do que as típicas estações de alimentação artificial (alimentadouros) criadas por diversas iniciativas de conservação”, explica Pedro Ribeiro, técnico de campo da Rewilding Portugal. “Nessas estações são colocadas muitas carcaças regularmente, o que pode atrair grandes grupos de grifos, que são muito agressivos entre si. Muitas vezes, isso resulta num frenesim alimentar louco, que afasta os abutres pretos. No caso de explorações como a de Albano, que depositarão uma ou duas carcaças por mês apenas, haverá por isso menos grifos e os abutres-pretos estão por isso muito mais dispostos a entrar e a alimentar-se por ali. Já vi grifos e abutres-pretos no seu local de deposição, bem como corvos e milhafres vermelhos e pretos”.

 

Os abutres-pretos alimentam-se frequentemente de carcaças deixadas na quinta de Albano. Juan Carlos Munoz
Os abutres-pretos alimentam-se frequentemente de carcaças deixadas na quinta de Albano. Juan Carlos Munoz
Juan Carlos Muñoz / Rewilding Europe

…. e também para as pessoas

Os proprietários de gado portugueses sem licença de deposição de carcaças são legalmente obrigados a pagar pela remoção dos cadáveres dos seus animais mortos. No entanto, na prática, muitos simplesmente deixam-nas no campo, uma vez que os serviços de remoção subsidiados pelo Governo não se estendem normalmente a zonas mais remotas. Nessas zonas, é suposto os agricultores cavarem buracos e enterrarem as carcaças, mas o solo é muitas vezes demasiado rochoso para realizar essa tarefa.

“Como deixar as carcaças na natureza é tecnicamente ilegal sem uma licença, as pessoas deixam-nas onde é difícil encontrá-las”, diz Pedro Ribeiro. “E como são difíceis de encontrar para as pessoas, também são difíceis de encontrar para os abutres – debaixo das árvores numa floresta, por exemplo”.

“Os mesmos locais são usados vezes sem conta, como um aterro sanitário, e assim temos dezenas de ovelhas, vacas e outros animais a apodrecer sem que os abutres os eliminem como poderia estar a ser feito. Isto é mau para o ambiente, porque os javalis, as raposas e os cães comem esses cadáveres, e depois as pessoas deixam iscos envenenados porque não gostam de raposas por  exemplo. A legalização destes locais de deposição, que são deliberadamente localizados em sítios onde os abutres os podem encontrar facilmente, é uma medida vantajosa para os agricultores, para os abutres e para a sociedade em geral. E também pode beneficiar o Governo português, que gasta mais de um milhão de euros por mês a subsidiar esta remoção de cadáveres”.

 

O papel essencial das carcaças na natureza: uma ilustração de Jeroen Helmer.
O papel essencial das carcaças na natureza: uma ilustração de Jeroen Helmer.
Jeroen Helmer

Navegar em burocracia

Num mundo ideal, os abutres de toda a Europa alimentar-se-iam exclusivamente das carcaças de animais selvagens. Esta é uma das razões pelas quais a Rewilding Europe e a Rewilding Portugal estão a trabalhar no sentido de reforçar o chamado “círculo da vida”, aumentando as populações de herbívoros selvagens em liberdade – como o bisonte europeu, os cavalos selvagens e os veados. No entanto, a densidade anormalmente baixa das actuais populações de animais selvagens em muitos locais significa que os cadáveres de gado são frequentemente uma fonte crítica de alimento para as aves necrófagas. Este é o caso do Grande Vale do Côa, onde o gado extensivamente pastoreado, como o gado bovino e caprino, ultrapassa em muito o número de herbívoros selvagens, como o veado.

No entanto, a política e a agricultura têm complicado este processo. Na sequência da crise da doença das vacas loucas, no início da década de 2000, a União Europeia impôs regulamentos rigorosos que proíbem deixar animais mortos no campo. Em vez disso, as carcaças dos animais domésticos tinham de ser recolhidas nas explorações agrícolas e destruídas. Esta medida reduziu drasticamente a disponibilidade de alimentos para aves necrófagas como os abutres, afectando negativamente as suas populações. Embora a UE tenha posteriormente flexibilizado estas restrições, permitindo que as carcaças fossem novamente deixadas na natureza, a sua aplicação tem variado muito de país para país. Alguns, como a Espanha, agiram rapidamente para facilitar a alimentação dos abutres, enquanto outros, incluindo Portugal, foram mais lentos a atuar.

“Em 2019, Portugal transcreveu a alteração da lei europeia para a lei nacional, o que, em teoria, significava que os agricultores podiam voltar a deixar as carcaças no campo”, explica Pedro Ribeiro. “No entanto, o processo de pedido de licença de deposição de carcaças neste país é incrivelmente complexo, burocrático e moroso. Neste momento, estamos a ajudar 10 agricultores extensivos na paisagem a candidatarem-se a licenças e Albano é o primeiro beneficiário.”

 

Pedro Ribeiro é um especialista em abutres europeus e está otimista quanto ao futuro da deposição de cadáveres em Portugal. João Cosme
Pedro Ribeiro é um especialista em abutres europeus e está otimista quanto ao futuro da deposição de cadáveres em Portugal. João Cosme

Rumo a um futuro mais risonho

Albano Alavedra é o primeiro proprietário do centro de Portugal a obter uma licença de deposição de carcaças. Até à data, só foram concedidas seis licenças em todo o país.

“A obtenção desta primeira licença foi um desafio”, afirma Pedro Ribeiro. “Mas agora que a temos, esperamos que seja uma lufada de ar fresco e que o processo de aprovação de licenças acelere. Gostaria de ver uma redução da burocracia, para que os agricultores de todo o país possam candidatar-se facilmente a licenças sem necessitarem da ajuda de uma ONG. Estou a fazer figas para que tudo se torne mais simples, porque os benefícios da deposição gratuita de carcaças para os abutres e para os agricultores são claros e convincentes”.

A concessão de uma licença no Grande Vale do Côa não é apenas um momento marcante para a região. Tem o potencial de criar um precedente para a conservação dos abutres em toda a Europa. Países como a Espanha, onde a deposição de carcaças já é muito mais comum, já testemunharam recuperações significativas da população de abutres. Ao encorajar uma adoção mais alargada noutras paisagens europeias, os decisores políticos têm agora a oportunidade de restaurar um processo ecológico vital que foi interrompido durante décadas. Uma Europa onde os abutres podem novamente prosperar nas carcaças de gado de criação extensiva está ao nosso alcance – o recente avanço no Grande Vale do Côa é um passo pequeno, mas crítico para tornar esta visão uma realidade.

 

Uma colónia de abutres cinzentos, em vias de extinção, está localizada perto da quinta de Albano Alavedra.Juan Carlos Muñoz
Uma colónia de abutres cinzentos, em vias de extinção, está localizada perto da quinta de Albano Alavedra.
Juan Carlos Muñoz
Juan Carlos Muñoz / Rewilding Europe

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